Ponte Anita Garibaldi: documentos apontam que falha dava sinal de colapso desde 2022, garante deputado

A interdição total da Ponte Anita Garibaldi, na BR-101, em Laguna, tem origem em um problema identificado pela primeira vez quatro anos antes, na mesma seção da estrutura. É o que mostram documentos obtidos pelo gabinete do deputado estadual Mário Motta (PSD) junto à concessionária Via Costeira e à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

A ponte, inaugurada em 2015 pelo Governo Federal, é administrada pela Via Costeira. O primeiro sinal de dano estrutural relevante surgiu em outubro de 2022, durante uma vistoria de rotina.

Em correspondência enviada ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) em 10 de outubro daquele ano, a Via Costeira relatou a identificação de deficiências estruturais no combate à torção dos esforços do pilar 35, dentro da seção celular da ponte. A prospecção em campo confirmou aberturas entre as aduelas 6 e 7 e entre as aduelas 14 e 15 do vão central sobre o mastro 35, além de uma abertura entre as aduelas 8 e 9 do vão lateral do mesmo apoio. A concessionária constatou ainda o rompimento completo das quatro barras que ligavam a laje inferior entre as aduelas 6 e 7.

No documento, a concessionária afirmou que o cenário indicava risco de colapso da estrutura e atribuiu a causa provável a um vício oculto na construção da obra. Como medida emergencial, o tráfego foi restrito a uma faixa no sentido norte e os veículos pesados foram desviados para a Ponte das Laranjeiras, conhecida como Ponte da Cabeçuda.

A solução adotada à época consistiu na instalação de cabos de protensão adicionais dentro da seção celular da ponte, ancorados por caixas metálicas e réguas desviadoras. O reforço foi concluído em 18 de outubro de 2022, e o tráfego liberado na sequência. De acordo com as informações colhidas nos documento, nos meses seguintes a concessionária deu continuidade à instalação de conjuntos de protensão nos vãos central e lateral do mastro 35 e programou uma prova de carga para janeiro de 2023, além de iniciar uma análise estrutural global da ponte, para a qual solicitou ao DNIT documentos da fase construtiva, como diário de obra e registros de forças e alongamentos medidos nos cabos estais durante a montagem.

Novo alerta e a interdição de 2026

Em ata de reunião realizada em 6 de julho de 2026, a ANTT e a concessionária, hoje sob o grupo Motiva, trataram de uma nova ocorrência: a identificação de uma abertura de aproximadamente 2,5 milímetros entre aduelas no vão lateral do mastro 36, ponto distinto do local afetado em 2022. Diante disso, a concessionária articulava como medida preventiva a restrição de circulação a cargas especiais com Autorização Especial de Trânsito acima de 10 toneladas por eixo, enquanto seguem as investigações.

Na mesma ata, a concessionária admitiu à ANTT dificuldade em localizar registros completos das etapas construtivas da ponte, incluindo os procedimentos de fechamento do tabuleiro e os ajustes de força nos estais. Segundo o documento, essa busca é conduzida desde 2022 e já revelou divergências entre os projetos disponíveis e os registros existentes. A ANTT se comprometeu a buscar apoio do DNIT para localizar esse acervo técnico.

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Três dias depois da reunião, em carta datada de 9 de julho de 2026, a concessionária informou à ANTT que havia recebido, no dia anterior, um relatório com os primeiros resultados de ensaios em andamento. O relatório constatou o rompimento de cabos de protensão na junta entre as aduelas A6 e A7 do vão central, no lado do apoio 35: o mesmo ponto da estrutura reforçado em outubro de 2022. Segundo a carta, a análise estrutural indicou que a capacidade resistente da seção não atende integralmente às margens de segurança normativas para as cargas móveis de projeto.

Com base em recomendação de consultoria técnica especializada, a concessionária decidiu pela interdição total do tráfego na ponte a partir das 19 horas do dia 9 de julho de 2026, com desvio pela Ponte das Cabeçudas, em Laguna. As intervenções emergenciais tiveram início em 10 de julho, com prazo de dez dias para a liberação parcial do tráfego, enquanto prossegue o processo investigativo para definição do reparo definitivo da estrutura.

Cobrança por explicações

O deputado Mário Motta, após apurar a sequência de fatos que resultou na interdição da ponte na última quinta-feira, dia 9, busca explicações. Entre os pontos levantados estão o intervalo de quase quatro anos entre a primeira constatação de risco de colapso, em 2022, e a falha que levou ao fechamento total da via em 2026, no mesmo local então reforçado, além da dificuldade reconhecida pela própria concessionária em reunir a documentação técnica completa da obra.

“O ponto mais grave é que o catarinense só ficou sabendo da situação quando a ponte já estava fechada. Alguém precisa explicar: o que foi feito desde 2022? Não podemos admitir que uma obra de quase 800 milhões de reais já tenha dado graves problemas tão cedo. Eu e meu gabinete estamos investigando tudo isso e buscando elementos que justifiquem levarmos o caso aos órgãos federais de controle. É inconcebível que uma rodovia vital para o desenvolvimento do estado seja tratada com tanto descaso”, pontuou.

O diretor da ViaCosteira, Fernando de Marchi, em entrevista coletiva na tarde desta sexta-feira, dia 10, informou que a integridade da estrutura está 100% garantida. “A Ponte Anita Garibaldi é nova, não conhecemos o que causa este problema. Mas identificamos que alguns dos cabos de aço estavam rompidos. Não houve um rompimento de maneira integral. Contudo, estamos fazendo os estudos necessários, atuando de maneira imediata e evitando com que este problema se agrave”, pontuou.

Para identificar o problema, técnicos foram chamados para realizar a análise detalhada do local. Marchi destacou que, possivelmente, seja uma situação pontual. Entretanto, afirmou que com a avaliação iniciada nesta sexta-feira será possível concluir o que aconteceu na estrutura e se também serão necessárias novas manutenções.

ViaCosteira segue com reparo da Ponte Anita Garibaldi

A ViaCosteira informa que os trabalhos de reparo na Ponte Anita Garibaldi, seguem em andamento. Para garantir a execução segura das atividades, a estrutura permanece totalmente bloqueada ao tráfego de veículos.

Os serviços mobilizam cerca de 50 profissionais, entre o time de operações, engenheiros, técnicos e equipes especializadas. As frentes de trabalho atuam 24 horas por dia, em regime ininterrupto, para dar celeridade à intervenção e reduzir o período de restrição aos motoristas.

As atividades avançam conforme o cronograma previsto, sob acompanhamento permanente das equipes de operações, engenharia e segurança, que realizam avaliações contínuas durante todas as etapas do reparo.

A expectativa é que os trabalhos sigam até o dia 20 de julho, quando será avaliada a liberação do tráfego, condicionada à evolução dos serviços.

Sobre o reparo

A necessidade da intervenção foi identificada durante o monitoramento permanente realizado pela concessionária. Em uma das inspeções, foi constatada uma anomalia pontual em uma das cordoalhas — conjunto de fios de aço de alta resistência.