Por: Fábio Bispo e Nícolas Horácio/Coluna Pelo Estado | 26/06/2020

“O Brasil não entrou tão cedo nessa pandemia. Entramos quase dois meses após a experiência de outros países, principalmente os asiáticos e alguns da Europa. O país, na minha opinião, não instituiu um plano de contingência adequado. Houve uma politização precoce e extremamente inadequada da pandemia, e se desviou o foco do mais importante: estipular um programa de enfrentamento ao coronavírus!”

A opinião é do médico infectologista Amaury Mielle. Natural de Campinas (SP), atua há 35 em Medicina e lamenta o estágio atual da crise, quatro meses após a confirmação do primeiro caso no Brasil. Para o médico, embora seja um país com dimensões continentais, era plenamente possível criar um programa por região, de acordo com as características populacionais e de concentração.

 

 

“O que a gente viu, de repente, foi que cada muncípio começou a tomar as suas medidas. Além disso, não podemos ficar pensando em comprar respirador e fazer hospital de campanha, isso é esperar a doença chegar. Hospital de campanha é o que a gente está vendo agora. É como construir estádio de futebol para a copa do mundo: um ninho de corrupção e desvio de verba”, diz o médico.

O enfrentamento ao coronavírus em Santa Catarina

Analisando o enfrentamento ao vírus em Santa Catarina, Mielle questiona a falta de consenso nas medidas. As soluções adotadas no litoral eram diferentes das medidas de Blumenau, assim como na Capital e no Oeste.

“Desde o início, acho que houve um erro estratégico, que custou e está custando essa nossa demora em conseguir ver uma luz no fim do túnel. O erro começa lá atrás. A gente sabe que o Brasil já tinha informações. Acho que o governo federal é responsável, sim, mas isso se estende a todos os gestores”, defende.

Na visão do médico, os gestores sabiam o que deveria ser feito: faltou concentrar a energia em volume de testes, entender o real tamanho da pandemia e estabelecer um plano de ação.

“Houve muito erro no início em não testar pessoas que deveriam ser testadas e liberar pessoas com sintomas que provavelmente eram de covid-19, como se fosse um estágio gripal. Só se testava pessoas com os sintomas mais importantes, então, houve uma grande falha”, afirma.

Decisões conjuntas

O médico defende a adoção de medidas conjuntas, nas regiões, para melhorar o enfrentamento ao coronavírus. Ele faz referência às características da região do Vale do Itajaí, onde a ligação entre Blumenau, Balnerário Camboriú e Itajaí é muito grande.

“Se você tem uma medida restritiva em Blumenau e deixa o comércio aberto em Balneário ou Itajaí, as pessoas vão pra lá. Olhar só para um município, não dá mais. A mesma coisa Florianópolis. Tem que ver Garopaba, Gov. Celso Ramos, São José, porque as pessoas se deslocam e o vírus vai junto”.

Mielle se diz defensor da ciência e, nesse caso, em detrimento a economia. “Se tivéssemos feito a lição de casa, o impacto econômico teria sido menor e passaríamos por um período de privação, objetivo. Mas, em um país acéfalo, cada um está tomando as suas medidas e as pessoas estão fatigadas desse processo.”

Quarentena

O médico de Blumenau também considera que não houve a implantação clara e objetiva de um isolamento ou de uma quarentena para o enfrentamento ao coronavírus. “Sempre digo que tivemos um aconselhamento para ficar em casa, mas não um isolamento.”

Sobre o crescimento de casos de coronavírus em Santa Catarina, Mielle relaciona com a ineficiência das medidas adotas. De acordo com os especialistas, para combater vírus, é preciso vacina ou remédio, mas o que fazer quando não se tem disponível nem um, nem o outro?

“Se em quatro meses de história, a gente apresenta crescimento dos casos, é sinal de que as ações não foram eficazes. Vírus respiratório requer prevenção, distanciamento, máscara e tudo o que as pessoas estão lotadas de conhecimento. Alguns não aplicam, mas conhecimento as pessoas têm.”

Flexibilizações

Mielle também não confia nas medidas recentes que fazem o comércio fechar duas horas mais cedo em Blumenau. Para ele, não há estudo e base científica apontando para a eficácia dessa medida.

“Baseado em que, você toma a decisão de antecipar o fechamento de um bar em duas horas? Qual é o detalhe? Onde está escrito que duas horas fazem diferença estatística quando se restringe  funcionamento do estabelecimento? O que a gente precisa ter é um pouco de benso, é ciência, estatística e epidemiologia para tomar medidas racionais.”

O primeiro caso de coronavírus, no Brasil, foi confirmado em 26 de fevereiro. Quatro meses depois, o país tem 1.280.054, são 56.109 mortes no país. Em Santa Catarina, o vírus chegou em março, com o primeiro caso no dia 12. 

Atualmente, o estado tem 22.947 casos e 298 mortes por coronavírus. Chapecó permanece a líder no número de casos e Joinville o número de mortes. Ao todo, 264 cidades catarinenses têm infectados com a doença.

“É desgastante, a gente poderia hoje estar falando sobre voltar escola, sobre se sentir seguro a trabalhar, ou seja, uma vida parecida com a que tínhamos janeiro, fevereiro, mas estamos distantes disso. Está provado que esse caminho, do jeito que a gente estava, não parece ser o correto”, ressalta Mielle.

Um número positivo? No aniversário de quatro meses da pandemia, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos em casos recuperados de covid-19. Segundo a Universidade Johns Hopkins, o Brasil tem 660.469 pacientes recuperados e os Estados Unidos 656.161. Para um e para outro, o enfrentamento ao coronavírus ainda é uma necessidade vital.