Por: Fábio Bispo e Nícolas Horácio/Coluna Pelo Estado | 26/06/2020

A vinda da nuvem de gafanhotos para Santa Catarina é considerada remota por especialistas. Ainda assim, a Epagri resolveu ampliar os estudos em relação a praga. Técnicos da empresa pública do estado continuam alertas ao deslocamento dos insetos na Argentina. Para alívio dos catarinenses, as condições climáticas previstas, indicando a chegada de uma frente fria, com queda de temperatura, não favorecem a vinda dos insetos. Sendo assim, o objetivo dos pesquisadores é aprofundar estudos e conhecer melhor o fenômeno.

O entomólogo da Estação Experimental da Epagri em Ituporanga, Leandro Delalibera Geremias, lembra que é observada uma diminuição dos gafanhotos na Argentina desde a década de 1950. 

No Brasil, foram registrados surtos de outras espécies em diferentes regiões até 1990, a maioria de forma esporádica e sem chegar a Santa Catarina. Isso justifica a limitação de conhecimento sobre a nuvem de gafanhotos no estado e, para contornar a questão, os entomologistas da Epagri estão buscando estudos no Brasil e fora.

Entenda o fenômeno da nuvem de gafanhotos que ameaçou chegar ao estado

Gafanhoto é o nome popular de um grupo de insetos que pertencem a ordem Orthoptera, onde se incluem também grilos, esperanças e paquinhas. Esta ordem possui mais de 30 mil espécies conhecidas, de acordo com Leandro.

A espécie da nuvem de gafanhotos que está na Argentina tem nome científico Schistocerca cancellata. Normalmente, apresenta o hábito solitário, mas sob algumas condições, pode adotar o hábito migratório, se agregando e formando “nuvens”.

Embora não sejam conclusivos, alguns estudos indicam que, quando a espécie encontra condições de clima e de alimentação favoráveis ao seu desenvolvimento, pode gerar até três gerações em um ano, uma a mais do que em condições normais.

“Com o aumento generalizado do número de indivíduos, há a necessidade de buscar novos nichos ecológicos para alimentação e daí ocorre a nuvem migratória”, explica o entomólogo da Epagri.

Ele afirma, ainda, que a praga pode se alimentar de cerca de 400 diferentes espécies vegetais.

Schistocerca cancellata

O Schistocerca cancellata tem ocorrência descrita no Brasil e em Santa Catarina. Entretanto, é no Noroeste da Argentina que o inseto encontra as condições ideais. 

Segundo Leandro, o primeiro relato de uma nuvem de gafanhotos na Argentina é de 1538, causando prejuízos principalmente na cultura de mandioca. “Não é um fenômeno novo, é cíclico, com um intervalo de ocorrência muito distante”.

Ele pede tranquilidade à população e diz que a recomendação da Epagri, no momento, é a vigilância constante e busca de conhecimento para evitar pânico.

O destino da nuvem de gafanhotos

Os pesquisadores da Epagri Kleber Trabaquini, doutor em sensoriamento remoto, e Marcelo Mendes de Haro, doutor em entomologia, conseguiram simular, a trajetória que a nuvem de gafanhotos deve percorrer nos próximos dias. De acordo com os cálculos dos profissionais da Epagri, eles devem seguir para o Uruguai nos próximos dias.

Para prever a trajetória dos insetos, os pesquisadores utilizaram o modelo Noaa Hysplit, que leva em consideração variáveis comportamentais e medidas climáticas da região. No mapa, fica evidente que a nuvem tende a entrar no território uruguaio nos próximos dias.

Dependendo da altura de voo do inseto, que pode variar entre 50, 100 ou 200 metros do nível do solo nas condições climáticas deste período do ano, a nuvem poderá alcançar 250 km (traçado verde), 300 km (traçado amarelo) ou 450 km (traçado vermelho), respectivamente.

Os resultados demonstram que eles poderão chegar até o Departamento de Rivera, localizada no Norte do Uruguai, ou atingir o Departamento de Cerro Largo, no Nordeste uruguaio.