Por: Andréa Leonora

Entrevista com o presidente Sicoob SC/RS, Rui Schneider da Silva

Mais do que em qualquer outra região do país, o Sul brasileiro tem no cooperativismo um diferencial muito forte, em grande parte responsável pela força do setor rural em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. Mas o setor não se dedica apenas à área rural. Consumo, transportes, educação, entre muitos outros, incluindo aí o cooperativismo de crédito.

O entrevistado dessa semana, Rui Schneider da Silva, é testemunha da evolução desse ramo específico. Nesta entrevista exclusiva, ele fala um pouco da importância das cooperativas para o desenvolvimento econômico e social do estado.

 

“Há gente que pensa que estamos na contramão da história.”

 

 

ADI-SC/Adjori-SC – O cooperativismo é muito forte em Santa Catarina e o ramo de Crédito não fica para trás. O que explica isso?

Rui Schneider da Silva – À medida que os bancos tradicionais vão deixando de atender micro e pequenos empresários, e se concentrando em grandes negócios, vão deixando de atender às pequenas localidades, regiões, lugarejos e mesmo bairros. Vimos as últimas notícias do Banco do Brasil fechando centenas de agências, Itaú, também, o Santander é uma exceção, continua crescendo. Nos anos 1980, quando o Banco Central nos autorizou a funcionar como cooperativa de crédito, começamos a trabalhar. Em Santa Catarina, a primeira cooperativa começou a operar em 8 de novembro de 1984, a Sicoob Crediauc, de Concórdia. Fui o primeiro presidente. Fez 35 anos agora. Dezessete dias depois, já surgiu outra em Chapecó, Joaçaba, Iporã do Oeste e assim foram crescendo. Fizemos sempre aquele trabalho formiguinha, vinculado aos nossos princípios cooperativistas. O cooperativismo tinha 13 ramos. O de crédito era um deles, e este continuou crescendo.

Lá no início, em Concórdia, criamos as cooperativas, com o apoio da OCESC, e fomos disseminando este trabalho de mutualidade. Observamos então que as entidades oficiais começaram a reduzir o número de funcionários. Percebemos isso principalmente com relação aos agricultores, que foi onde nasceu o cooperativismo de crédito, no Oeste de Santa Catarina, com apoio das cooperativas de produção, que foram nossas cooperativas-mães. Fui secretário e diretor-financeiro da Copérdia e trabalhava no Banco do Brasil. Por isso, me convidaram para ser presidente da cooperativa de crédito, porque tinha uma bagagem de banco e de crédito com cooperativa. Juntamos sindicatos de trabalhadores rurais e sindicatos patronais rurais em prol do cooperativismo de crédito e as cooperativas foram crescendo. O objetivo era atender as necessidades de crédito dos associados para poder dar mutualidade.

Depois, com a situação do BESC e a diminuição da oferte de crédito pelos demais bancos, as cooperativas passaram a trabalhar no crédito rural. E o crédito rural agrega muitos valores nas regiões em que atua. Porque os recursos com que lidamos são captados e aplicados na própria região. E muitas vezes há recursos de fora que também são aplicados na região de atuação da cooperativa. A rentabilidade que resulta desse trabalho é distribuída entre os associados. São feitas assembleias gerais ordinárias e extraordinárias, com a participação dos associados, em que são apresentadas as ações do ano anterior e as ações previstas para o próximo ano. O associado pode sugerir ideias, discute como serão distribuídas as sobras, se capitaliza uma parte, se distribui.

Eu diria que o cooperativismo de crédito começou a assumir ações governamentais, porque eram os bancos oficiais que faziam esse trabalho. Hoje, em Santa Catarina, o Sicoob é o segundo maior emprestador de crédito rural. No Rio Grande do Sul, estamos entrando há pouco tempo. Lá, não existia Sicoob, apenas o Sicred. Há seis anos, mais ou menos, o Banco Central sugeriu que atuássemos também no Rio Grande do Sul, alegando que era salutar que houvesse duas cooperativas de crédito. Fizemos o projeto e começamos a atuar no Rio Grande do Sul. Para isso, fizemos um planejamento estratégico para poder chegar no Rio Grande do Sul.

Nosso propósito é chegar com no mínimo um ponto de atendimento em cada município que tenha mais de 20 mil habitantes. As cooperativas têm as suas metas e elas estão cumprindo. A meta é de três a cinco anos de prazo. Em Santa Catarina, até 30 de setembro tínhamos 977.600 associados. A meta de 1 milhão de associados devemos atingir em janeiro. São 39 cooperativas. Devemos fazer a divulgação desse dado em março, na época das assembleias.

 

ADI/Adjori – O Em Santa Catarina, o Sicoob é o segundo maior emprestador rural. Quem é o primeiro?

Schneider – Ainda é o Banco do Brasil.

 

ADI/Adjori – E essa meta de um ponto de para cada cidade com mais de 20 mil habitantes vale também para Santa Catarina?

Schneider – Isso é para o Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina queremos chegar a 100% dos municípios. Em novembro deste ano atingiremos 264 municípios no estado. Hoje são 261. Com esse novo número, atingimos 90% do estado. Estava conversando com o vice-presidente do Sicred, e eles estão em 92% do Rio Grande do Sul. Eles são mais antigos que nós. Têm uma cooperativa centenária em Nova Petrópolis, de 1902, e nós começamos em 1984. Faltam 31 municípios para chegar aos 100%. É presença! Não podemos ter a pretensão de dizer que atendemos a todo o estado. Vou citar um exemplo: Palhoça tem 200 mil habitantes. Temos três pontos de atendimento. Mas quantos cabem ainda em Palhoça? Joinville tem quase 600 mil habitantes. Temos oito pontos de atendimento. Quantos cabem ainda em Joinville? Florianópolis. Temos um em Ingleses, passei em frente a um no Campeche, muito bonito, Canasvieiras, Estreito, no Centro da cidade, na Trindade. Mas quanto mais ainda tem para atender? Temos quantos milhões de habitantes ainda para atender?

 

ADI/Adjori – O impulso observado mais recentemente está muito atrelado à saída do papel exclusivo de crédito rural para outro perfil de consumidor. Como foi essa mudança?

Schneider – Boa pergunta. O crescimento maior se deu a partir da autorização do Banco Central para trabalharmos com livre admissão. Até então, éramos segmentados a agricultores. Hoje temos apenas uma cooperativa puramente de agricultor. As demais são todas de livre admissão, podem atender qualquer munícipe. Isso provocou um boom, porque pudemos passar a atender qualquer pessoa física ou jurídica que resida ou esteja estabelecida naquele município. E quando as pessoas começam a receber os valores de sobra da cooperativa, ficam animadas. A meta é também capitalizar; precisamos crescer para podermos emprestar.

 

ADI/Adjori – Meta alcançada?

Schneider – Sim. Quando sonhávamos em ter um banco cooperativo, nos anos 1980, não imaginávamos que hoje teríamos sobrando para emprestar R$ 1,4 bilhão. Isso é dinheiro do nosso associado. Emprestamos parte desse valor e o restante está aí, para a gente trabalhar. O que não é emprestado, é aplicado em título do Tesouro Nacional. Como as cooperativas sobreviveram à crise de 2008, à inflação alta? Diversificando o crédito. Emprestar pouco para mais gente, em vez de muito para pouca gente. Isso deixa para os grandes bancos.

 

Em conversa com um dos gerentes do Banco Central, avaliávamos que, hoje, quem pratica mais a inclusão financeira são as cooperativas, presentes em todos os estados da Federação. São 4.367.000 associados no país, sendo 977 mil só no estado. Aí se vê que nosso percentual de crescimento é maior. É que temos um DNA da cultura cooperativista.

 

ADI/Adjori – O que explica esse DNA tão forte e diferenciado?

Schneider – Isso vem lá das origens das cooperativas de produção. Só citando alguns números, temos 39 cooperativas nos dois estados, Santa Catarina e Rio Grande do Sul; 977,6 mil associados; 5,9 mil colaboradores; patrimônio consolidado é de R$ 2,4 bilhões; depósitos à vista e a prazo são pouco mais de R$ 11 bilhões; de operações de crédito são R$ 8,3 bilhões; e ativos, dinheiro de nosso associado, de R$ 16,1 bilhões. Estes são dados de 30 de setembro deste ano. A cada mês mudam esses números. Temos também 495 pontos de atendimento nos dois estados.

 

ADI/Adjori – Esses quatro milhões de associados são de todo o sistema cooperativo?

Schneider – Não, apenas Sicoob. Sicred, Unicred, Cresol, e assim vai, têm suas partes. Se não me engano, falta apenas um estado da Federação. Os únicos estados que têm duas centrais são São Paulo e Minas Gerais. O restante, como nós, tem apenas uma central. As cooperativas são iguais aos bancos, garantem os depósitos até R$ 250.000,00. Existe um Fundo Garantidor Nacional, do qual sou Conselheiro Fiscal, sem ganhar salário de presença, já vou avisando (risos), e esse fundo tem R$ 1,2 bilhão para cobrir qualquer problema que dê nas cooperativas. Esse é nacional.

Mas nós temos um Fundo de Estabilidade Financeira para os dois estados. São R$ 412 milhões que temos de reserva. Nunca vamos permitir que uma de nossas cooperativas dê problema para o nosso associado. Já acionamos a cooperativa, fazemos uma incorporação, ou um trabalho de recuperação, de adequação, injetamos recursos. Não temos associado que tenha tido problema com o Sicoob nos dois estados. Além do nosso fundo e do fundo nacional tem também o Fundo Garantidor do Cooperativismo (FGCoop).

 

ADI/Adjori – Com a livre admissão, em um primeiro momento entraram muitos associados pessoa física. Agora tem uma curva de crescimento de pessoas jurídicas. Como a cooperativa está trabalhando a entrada de micro e pequenas empresas? Além disso, há pouco as cooperativas se abriram para o mercado. Como isso aconteceu e como estão lidando com a situação?

Schneider – A livre admissão começou em 2003. Com a entrada das pessoas jurídicas, passamos a operar com as folhas de pagamento dessas empresas, através do Bancoob. Fazem cobrança de boleto. Operamos como um banco, mas não temos lucro, temos sobras. Isso é regido pela lei 5.764/71, a Lei das Cooperativas. Houve esse crescimento e aí está uma das nossas maiores preocupações, que se chama recuperação judicial. Por isso falei que procuramos emprestar pouco para muitos.

Não emprestamos para grandes empresas ou grandes indústrias, mas de médio para baixo, onde se corre risco menor e atendemos aquela classe que não é atendida pelos grandes bancos. Poderíamos atender mais pessoas jurídicas, mas há uma grande dificuldade de fazer uma análise cadastral delas. Quando se faz um empréstimo, a base dele são cadastro e garantias. Lógico que se observam a liquidez, a solidez da empresa, a seriedade dos proprietários. Hoje em dia o controle está melhor, devido à sincronização dos dados entre municípios, estados e a Federação. Os balanços e balancetes das empresas são mais confiáveis. Mas sempre ficamos desconfiados. Às vezes, surge a notícia de que uma empresa que há 30 dias estava bem, crescendo, ampliando, de repente pede recuperação judicial. Aí reside nossa preocupação.

Se estivesse emprestando meu dinheiro, a responsabilidade seria minha. Mas tenho normas, circulares, resoluções, fiscalização, auditoria direta, indireta, inspetoria, Banco Central, o CNAC, que é a entidade de auditoria cooperativa, tudo isso fiscalizando. E nosso Comitê de Crédito tem que cumprir uma série rigorosa de normas para poder conceder o crédito.

 

Temos que tomar um extremo cuidado porque é um recurso que não é nosso, é de terceiros, é o dinheiro suado do nosso agricultor, do trabalhador urbano.

 

ADI/Adjori – Uma lei aprovada pelo Congresso Nacional permitia que as cooperativas gerissem as finanças dos municípios. Isso foi posto em prática pelo Sicoob?

Schneider – Existe um artigo na Constituição que não permite que os recursos das entidades públicas possam ser geridos por cooperativas. Podemos operar com entidade pública através de convênios. Por exemplo, a prefeitura resolve fazer a cobrança de IPTU através de uma cooperativa, mas o recurso tem que ser imediatamente repassado para o Município.

 

ADI/Adjori – E tem movimento desse tipo em Santa Catarina?

Schneider – Sim, isso é muito comum, porque as prefeituras analisam muito bem a questão das tarifas. Como temos uma estrutura enxuta, nossas tarifas são atrativas, principalmente para os pequenos municípios. Os grandes municípios costumam atuar com grandes bancos. Mas nada impede de trabalharmos nesse sentido. Na Grande Florianópolis, muitos condomínios residenciais e empresariais estão entrando de sócios nas cooperativas para fazer a cobrança de seus condôminos. Muitas empresas vinculam a folha de pagamento de seus funcionários às cooperativas.

Temos um sistema próprio para isso, sem custo. Para nós é interessante. Dependendo da empresa, colocamos um ponto de atendimento no local. Isso facilita o crescimento das cooperativas. Há gente que pensa que estamos na contramão da história, porque aumentamos nossa estrutura enquanto todos diminuem. Mas ainda estamos em fase de crescimento. Vai chegar um momento em que teremos que parar de crescer.

Não podemos esquecer a era digital, com vários bancos digitais atuando no mercado. Essa geração que está vindo vai aderir a isso. Já está aderindo.

Em 2020, vamos lançar nossa estrutura puramente digital, para atender a esse associado que não vai à cooperativa. Hoje fazemos tudo pelo celular, pelo computador. Em 1984, apenas sonhávamos com isso. Chegamos a um ponto que temos dificuldade para emprestar. Em Itapiranga, um município lá no Extremo Oeste, de famílias alemãs, altamente poupadoras. Trabalham com poupança e querem ver esse recurso crescer. E nós não podemos trabalhar apenas com títulos públicos. Ano passado, tivemos mais de R$ 280 milhões de sobras. Este ano, talvez tenhamos o mesmo valor. Mas não sabemos como ficará a economia.

 

 

ADI/Adjori – Qual a projeção para 2019 e para 2020?

Schneider – Acho que teremos um crescimento em torno de 15% a 16%. Em 2018 foram 16,02%. Não pretendemos muito mais do que isso, porque quando temos uma rentabilidade muito grande é que estamos cobrando demais dos nossos associados. Então, nossa meta é que o associado pague menos taxas, menos juros e ainda sobre algo para distribuir no final do ano. Às vezes a rentabilidade do banco deu 20 e tantos por cento, a nossa deu 16%. Temos que fazer a conta do juro que o associado deixou de pagar. Nossa economia, com as reformas da Previdência e Tributária, e outras, vai deslanchar aos poucos. Mas não dependemos dessa situação. As reformas serão melhores para o Brasil de modo geral. Como 2019 não vai ser muito diferente o crescimento, com relação a 2018, espero que haja um crescimento de 10% a mais em 2020.

 

O governo não vai conseguir implantar tudo o que pretende. A economia caminha devagar. Tínhamos uma estimativa mais arrojada de abrir postos de atendimento. Vamos mais devagar.

 

E tem a opção do atendimento digital. 2020 é promissor para as cooperativas de modo geral, com todo mundo treinando e se capacitando para atender aos associados, cumprindo as normas determinadas pelo Banco Central e pelo Conselho Monetário Nacional e nos resguardando com os fundos de reserva para nos garantir para qualquer solavanco.

 

ADI/Adjori – O custo para manter uma conta no Sicoob é muito diferente do de um banco?

Schneider – Às vezes é enorme, porque não tem tarifa nas cooperativas. Nossas operações de crédito estavam em média 1,53%, nosso cheque especial, em 5,76%. Nossa inadimplência, em 2,6% e caindo. Estamos no rumo certo. Nosso índice Basileia está em 14,97%, quase 15%. Estamos em uma situação adequada para enfrentar o que vem pela frente. Temos reservas, fundos garantidores, pessoal capacitado.

Temos em torno de 300 cursos, muitos presenciais, mas a maioria on-line, da Universidade Sicoob, que dá complementação desses cursos, além da Escola de Dirigentes Executivos. Temos um grupo com seis cooperativas e fazemos cursos, com professores e professores auxiliares que se deslocam para aplicar os cursos. Isso facilita bastante. Fazemos viagens internacionais, com estágios de uma semana no Canadá, Espanha, Estados Unidos e especialmente Alemanha, que tem uma estrutura muito boa.

A maioria das cooperativas brasileiras aprendeu lá. O cooperativismo espanhol é mais para o lado social. Socialista, não comunista! E o cooperativismo da Alemanha, do Canadá e dos Estados Unidos não é capitalista, é um meio termo, como o nosso. Na Alemanha, um coordenador local disse que muitas coisas poderiam ser aprendidas conosco. Ele citou, por exemplo, o trabalho com crianças, jovens e adolescentes, que não fazem mais por lá, porque a média de idade é maior. Se pudéssemos mostrar tudo o que fazemos só em Santa Catarina, seria muito tempo. Fazemos e não conseguimos divulgar.

 

ADI/Adjori – Como fica a questão digital para 2020?

Schneider – Teremos uma cooperativa digital, com postos de atendimento digitais. É igual o que outros estão oferecendo. Nossa estrutura de tecnologia da informação (TI) é boa, e oferecemos mais garantias. Saquei no Mato Grosso do Sul, na Espanha, no Canadá, só para testar. E funciona. Mais de 53% de nosso movimento já é feito digitalmente, no Brasil inteiro. Em determinadas regiões dará muito mais, em outras menos, dependendo dos hábitos do local. Temos que ensinar nosso público a operar em muitos desses locais. O que quero destacar, ao final, é que o cooperativismo de crédito faz um trabalho muito sério, com competência, mais do que fazíamos antigamente, sendo fiscalizados, procurando dar uma garantia para que o associado trabalhe com tranquilidade e na área financeira, sem necessidade de buscar recursos em outras entidades.

Estamos querendo oferecer um portfólio que atenda às necessidades dos associados em cada região. A região determina o que quer. Trabalhamos com seriedade e dedicação. Estou há 20 anos na central como presidente, dando expediente integral. Eu vivo o cooperativismo. Não tenho outra atividade. Acho que isso é muito importante para nossos associados.

 

Se puder acrescentar no finalzinho… Agradecemos às empresas de marketing e de comunicação que divulgam o trabalho do cooperativismo. Através de vocês, nós crescemos também.

 

 

Jornalistas: Andréa Leonora (ADI-SC) e Murici Balbinot (Adjori-SC)
Fotos: Andréa Leonora
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