Por: SC Portais

Entrevista: Paulo Cesar Lopes

 

A crise instalada pela pandemia do novo coronavírus vem provocando mudanças de comportamentos nunca antes vistas na nossa sociedade globalizada. Os efeitos nos mercados, por exemplo, são contabilizados dia a dia e muitos empresários ainda aguardam ainda atônitos quais serão os próximos desdobramentos dessa crise. Mas tem setores que puderam parar, independente da demanda, o setor dos supermercados foi um deles. Num primeiro momento, a corrida de pessoas as lojas para compra de itens básicos até chegou a elevar as receitas, mas o movimento logo se estabilizou e agora demonstra uma tendência de queda. Na entrevista desta semana, Paulo Cesar Lopes, presidente da Associação Catarinense dos Supermercados, fala um pouco de como está sendo enfrentar esse momento e tranquiliza a população sobre as demandas de consumo.

[Pelo Estado] – Como a rede de supermercados de SC se preparou para a chegada da pandemia aqui em Santa Catarina? Pelo que estava ocorrendo no mundo vocês já esperavam que teríamos um cenário como este por aqui também?
Paulo Cesar Lopes – As empresas se preocuparam, desde o início, da crise provocada pelo coronavirus, em manter suas atividades com plena capacidade para atender as demandas dos consumidores dentro de ambientes seguros do ponto de vista sanitário. Através da Associação Catarinense de Supermercados (Acats) as empresas recebem todas as orientações das autoridades da Saúde
[PE] – A corrida das pessoas aos supermercados em um primeiro momento chegou a causar algum tipo de desabastecimento? Como foi o trabalho de logística para tratar dessa situação?
Paulo Cesar Lopes – Tivemos uma movimentação atípica no entorno do anúncio do isolamento social, o período de 16/03/2020 a 22/03/2020, quando foi registrada na média um acréscimo de 50% nas vendas. Na semana seguinte a situação voltou ao normal, com as vendas reduzidas também 50%, na média.

Não houve nenhuma situação de desabastecimento, todas as lojas deram conta de repor com estoques.

[PE] – Que tipos de itens, por exemplo, têm deixados de ser consumido?
Paulo Cesar Lopes – Num primeiro momento houve aquela corrida de compras por itens de estocagem em categorias como a mercearia seca, material de limpeza e higiene. Daí os consumidores perceberam que não era mais necessária esta estratégia e ao mesmo tempo o consumo mudou um pouco focando mais nos itens essenciais, em detrimento de maior procura por supérfluos.
[PE] – Essa mudança no perfil de consumo pode trazer algum tipo de problema para o setor?
Paulo Cesar Lopes – A ACATS está monitorando a movimentação das lojas mas acreditamos que a tendência é de que após um período mais agudo de reclusão das pessoas, a medida em que o Governo for liberando novas atividades, o consumo também voltará aos patamares anteriores.
[PE] – Qual é a expectativa para os próximos meses e para a páscoa?
Paulo Cesar Lopes – O setor vinha num momento de recuperação em 2020. Fevereiro registrou um desempenho 7,81% superior em relação ao 2019, e na comparação de fevereiro com janeiro de 2020, o resultado também foi positivo, de 1,80%. No acumulado o primeiro bimestre fechou com + 4,29% superior a idêntico período de 2019.
Na sondagem do termômetro de vendas relativo a fevereiro, ainda sem a ocorrência dos efeitos do coronavirus, realizada na primeira quinzena de março, a expectativa do setor era de otimismo em relação à Páscoa deste ano. Dos pesquisados, 37% indicaram que compraram mais produtos para a Páscoa de 2020, 8% na média, enquanto outros 37% responderam que ficaram no mesmo patamar de encomendas de 2019. Um contingente de 26% afirmou que aguardava vendas mais fracas e que diminuiu a quantidade de produtos.

80% dos empresários indica a possibilidade de queda de vendas, com a preferência por itens de baixo valor

A mesma sondagem feita com os empresários após a pandemia do coronavinus indica uma mudança radical de expectativas: 80% dos empresários indica a possibilidade de queda de vendas, com a preferência por itens de baixo valor e somente 20% acredita que a Páscoa terá o mesmo desempenho de 2019. Ninguém indicou crescimento.
PE] – O momento atual de certa forma obrigou muitos setores a migrarem para as vendas online. Como está essa modalidade de negócio?
Paulo Cesar Lopes -Neste particular, houve um grande avanço das empresas que começaram a atuar mais intensamente através das redes sociais. As lojas de pequeno porte saíram na frente pela facilidade da logística de compras de pequeno porte. Todas as grandes redes mantém canais de e-commerce mas a prática mostrou que o canal através de redes sociais, principalmente o Whats app, tinha a preferência dos consumidores por conta da agilidade e a partir daí lojas e redes de todos os portes e regiões do Estado passaram a atender através deste canal, muitas vezes com auxílio do suporte dos aplicativos de tele entrega ou mesmo desenvolvendo soluções próprias.
[PE] – Qual é a maior dificuldade do setor neste momento?
Paulo Cesar Lopes – O nível de incerteza em relação ao tamanho do estrago desta pandemia é muito alto. O segmento supermercadista continua operando, já que é considerado essencial, mas a cadeia econômica é formada por muitos setores, alguns, seriamente afetados por um período prolongado de fechamento e isso trará consequências para todo mundo. Todos vão ter de rever suas estratégias, seus planos. E mudar o planejamento estratégico. As empresas vão esperar e ver como vai se comportar o consumidor. O processo de tomada de decisão mudou. O planejamento é absolutamente crítico. Não dá para errar nesta hora.

Jornalistas

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