Por: SC Portais | 26/02/2018

O novo secretário de Estado da Segurança Pública, Alceu de Oliveira, montou seu time com dois outros nomes que o governador em exercício, Eduardo Pinho Moreira, tem classificado como “combatentes”. Os três, Oliveira, o delegado-geral da Polícia Civil, Marcos Ghizoni, e o comandante-geral da Polícia Militar, Carlos Alberto de Araújo Gomes, tomaram posse na semana passada e já coordenaram algumas operações que agitaram os criminosos, notadamente na Capital. O novo responsável pela SSP é graduado em Direito (UFSC), mestre e doutor em Ciência Jurídica (Univali) e professor e coordenador de cursos de graduação e pós-graduação, dos quais não pretende se afastar. Integrou a equipe de formulação do Curso de Bacharel em Segurança Pública (primeiro curso da área no Brasil), que formou os oficiais da Polícia Militar de Santa Catarina de 2000 a 2006. Nesta entrevista exclusiva concedida à reportagem da Coluna Pelo Estado, ele fala um pouco dos planos de curto, médio e longo prazo para conter o avanço da criminalidade em Santa Catarina.

[PeloEstado] – O que o senhor pretende fazer para interromper o crescimento da violência em SC?
Alceu de Oliveira – Eu já vinha acompanhando o quadro criminal em Santa Catarina e minha tese de Doutorado foi estudar cenários e atores criminais. Isso facilitou muito, somando com o conhecimento que o coronel Araújo Gomes e o delegado Marcos Ghizoni têm, para fazer uma análise da situação e programae ações de curto, médio e longo prazo para serem desencadeadas tão logo a cúpula da Segurança Pública estivesse formada. Imediatamente ao final da solenidade de posse do novo comandante da PM (quinta-feira, 22), já foram desencadeadas algumas operações que resultaram em armas apreendidas, integrantes de grupos do crime organizado presos e, infelizmente, um morto. Portanto, as ações de curto prazo serão para desmobilizar principalmente o arsenal de organizações criminosas.

[PE] – Qual a base da estratégia?
Alceu de Oliveira – A desmobilização e o enfraquecimento dessas organizações vão facilitar algumas ações posteriores, desde a coleta de informações até prisões e apreensões de drogas e armas. O prejuízo financeiro enfraquecerá o tráfico de entorpecentes e reduzirá os homicídios decorrentes das disputas por pontos de drogas. O que queremos em longo prazo é tornar Santa Catarina desinteressante para as organizações criminosas. Isso certamente vai reduzir os índices de criminalidade no estado.

[PE] – Mesmo em tão pouco tempo?
Alceu de Oliveira – O planejamento que fizemos não é de 10 meses, mas de Estado. Algumas medidas devem se tornar perenes, independentemente de quem seja o secretário ou o governador. Os protocolos de organização dependem de uma constante atualização, porque os cenários mudam rapidamente. Tenho certeza que, mirando em determinados pontos, vamos ter êxito no combate. Não adianta mirar no tráfico de entorpecentes, porque ele não é um crime isolado, mas uma consequência da organização criminosa. Mas é preciso um cuidado situacional. É histórico que quando se tem êxito em uma operação contra o tráfico, imediatamente, naquela região, aumentam os casos de furtos e roubos. Os criminosos vão buscar se recapitalizar para comprar mais armas e mais drogas. Todas as operações feitas pelas forças de segurança têm resultados imediatos, que são as detenções e as apreensões, e consequências, como o risco de migração da criminalidade, atos de vandalismo e a busca por novas modalidades de crimes. Precisamos prever as consequências para enfrentá-las com alguma vantagem.

[PE] – Como avalia a estrutura da SSP para tamanha tarefa?
Alceu de Oliveira – Muito bem em tecnologia, em formação e em informação. Mas considero urgente a integração dos bancos de dados. Alguns não se comunicam e precisamos disso para ontem. O delegado Antônio Alexandre Kale, o novo diretor de Informação e Inteligência (DINI), tem excelente relacionamento com a Polícia Militar e era o responsável pelas informações da Polícia Civil. Ele está aglutinando os dados e repassando um conjunto de informações mais organizadas para as agências. O que se pretende fazer agora é dar mais efetividade aos grupamentos que nós temos. O tablet, por exemplo, incorporado pela Polícia Militar, reduziu pela metade o tempo para o registro de uma ocorrência.

[PE] – Já nos primeiros dias como secretário o senhor teve que enfrentar uma crise, com ônibus e carros incendiados na Capital. Foi uma retaliação dos criminosos?
Alceu de Oliveira – O que deflagrou o vandalismo contra veículos foram operações policiais previamente planejadas. Com uma diferença importante: o uso da Inteligência nessas operações possibilitou, além de descobrir e apreender armas, programar os passos seguintes, sempre surpreendendo os criminosos. Sabíamos que com a apreensão de armas de uma organização o grupo concorrente ia tentar tomar aquele espaço. Então, desenvolvemos uma estratégia, inclusive com o BOPE, para surpreender os membros dessa outra organização. Isso deu resultado. O trabalho da PM foi fenomenal. Conseguimos cercar um grupo de pessoas em uma determinada região e eles ordenaram a seus comparsas que fossem feitos os atos de vandalismo para desviar a atenção da Polícia e tentar desfazer o cerco. Mas nossa Inteligência já sabia que eles fariam isso. Tentamos minimizar os estragos, mas não abandonamos o local, fizemos prisões e identificamos outras situações que  agora serão investigadas. Essas operações vão acontecer em cadeia a partir de agora. Vamos sufocar as organizações. Elas vão perder drogas, armas e integrantes.

[PE] – De onde vêm as drogas e armas que abastecem o estado?
Alceu de Oliveira – São vários os canais, inclusive rotas internacionais. Santa Catarina passou a ser interessante por ter curta distância de uma fronteira internacional com os portos que nós temos na região. O escoamento é fácil. Sabemos que algumas armas são produto de furto e roubo dentro do próprio estado, armas que entram pelo Paraná e outras que entram por fronteiras internacionais. Este mapeamento está possibilitando sufocar alguns perfis do crime organizado, de comando, de utilização de armamento, que significa poder, e até o perfil econômico. Só um fuzil apreendido recentemente custa R$ 30 mil no mercado negro.

[PE] – Quantas organizações criminosas atuam aqui?
Alceu de Oliveira – Trabalhamos prioritariamente com duas organizações, embora uma delas tenha, fora do estado, a participação de outras pequenas organizações. Para além disso, existem quadrilhas e grupos que não chegam a ser uma facção criminosa, mas que também estão no nosso radar.

[PE] – Quais as regiões do estado mais preocupam do ponto de vista da Segurança Pública?
Alceu de Oliveira – Alguns pontos são bem claros, como Florianópolis e Joinville. Outros pontos importantes, como a região de Navegantes, Itajaí, Balneário Camboriú, e existem manchas criminais espalhadas pelo interior. É impressionante a quantidade de dados que existem sobre as zonas de criminalidade e as chamadas zonas potenciais de conflito. As mais perigosas, onde acontece tráfico de drogas e com os maiores índices de criminalidade, estão identificadas e sabemos que são mais vinculadas com organizações do crime. Este é o nosso foco no primeiro momento, dentro da estratégia de sufocar as facções, mas com o cuidado de conter a migração da criminalidade. Portanto, essas operações estão sendo pensadas para atacar as zonas vermelhas, mas mantendo a prontidão em possíveis rotas de fuga. Isso dá mais efetividade à operação e evita que simplesmente mudemos a mancha criminal de lugar.

[PE] – O que prevê para combater a violência contra a mulher?
Alceu de Oliveira – Esta é uma questão muito importante. Existem programas específicos para a prevenção da violência contra a mulher e é necessário um trabalho cultural para quebrar paradigmas. Nossas forças policiais têm programas de empoderamento dessas mulheres ou dessas vítimas. Estamos prevendo uma reorganização, a médio prazo, das delegacias de polícia e das formas de atendimento. Mas, principalmente, vamos entrar em contato com as prefeituras para que sejam instaladas casas de acolhimento para essas vítimas. Às vezes a mulher se submete à violência domiciliar por falta de opções. Uma das integrações de bancos de dados que nós precisamos é exatamente esta: das delegacias com o Judiciário. Assim será possível acompanhar desde o primeiro boletim de ocorrência o que está sendo feito em favor daquela mulher.

Mensagem aos cidadãos catarinenses:

“Confiem nas forças policiais. Estamos realizando um trabalho muito sério, com muita responsabilidade. Usem o Disque-Denúncia, o 181, porque esta é uma fonte importantíssima de informação para nós. Organizem redes de Vizinhos Solidários e participem dos Conselhos Comunitários de Segurança. Tenho, por comparação acadêmica, absoluta convicção de que temos as melhores polícias do Brasil, Civil e Militar.”