Por: SC Portais

“Tratamos a sustentabilidade como um tripé: meio ambiente, responsabilidade social e rentabilidade.”

 

“Não estamos no Brasil só para resultados imediatos”

 

A Engie Energia, com sede na Capital catarinense, é a maior produtora privada de energia elétrica do país. Por aqui, a multinacional possui o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Capivari de Baixo; a Usina Solar Cidade Azul e a Eólica Tubarão, ambas em Tubarão; as hidrelétricas Itá e Machadinho, na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul; e a Usina Cogeração Lages. A capacidade total instalada em 31 usinas de diferentes estados chega a 9.178,8 megawatts (MW), aproximadamente 6% do total de energia gerado no Brasil. Um aspecto chama a atenção: 90% da geração energética do grupo no país vêm de fontes limpas, renováveis e com baixas emissões de gases de efeito estufa, posição que tem sido reforçada pela construção de novas eólicas no Nordeste e por uma das maiores hidrelétricas do país, Jirau (3.750 MW), localizada no rio Madeira, empreendimento do qual a Engie detém participação de 40%.

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Para saber um pouco mais sobre a preocupação ambiental, os impactos do momento do país nos negócios da companhia e as metas de crescimento da Engie, a Coluna Pelo Estado fez uma entrevista exclusiva com o presidente Eduardo Sattamini. “Estamos liderando a transição energética ao focar em atividades-chave para o futuro: geração com baixa produção de carbono, especialmente por meio do gás natural e energias renováveis; linhas de transmissão mais eficientes; as infraestruturas energéticas e soluções eficientes adaptadas para as necessidades dos nossos clientes, sejam pessoas, empresas ou cidades”, defende.

 

[PeloEstado] – A Engie tem uma preocupação ambiental bastante latente e isso aparece nos negócios da companhia. Os funcionários são envolvidos nessa estratégia?
Eduardo Sattamini – Nós temos essa preocupação, sim, e a cada ano aumenta, sempre com a participação dos nossos colaboradores. Por exemplo, todos os anos nós temos o Seminário Gestão Sustentável, primeiro realizado com o público interno e trabalhadores das usinas, e hoje aberto à participação de quem tiver interesse nos temas. Começou como um evento de meio ambiente e evoluiu para um evento de sustentabilidade.

[PE] – O que muda de fato com essa evolução?
Sattamini – Passamos a incorporar responsabilidade social, visão econômica e as questões ambientais propriamente ditas. Há dois anos, quando assumi a presidência da Engie, optamos por aglutinar as duas áreas, meio ambiente e responsabilidde social, uma vez que andam muito juntas. E usamos a própria comunidade beneficiada com nossas ações de responsabilidade social como alavancadora de iniciativas ambientais. Isso passa por cursos de proteção ambiental e os participantes acabam se engajando nos projetos conosco.

[PE] – O que a Engie busca em eventos como o Seminário de Gestão Ambiental?
Sattamini – Reflexão. Temos que estar sempre buscando um propósito, ampliando o conhecimento, trocando ideias. Quando isso acontece, se reproduz em forma de ações que podem ser implementadas. Só ideias não têm valor algum, a menos que tenham aplicação. O objetivo é melhorar ainda mais a nossa sustentabilidade, arejando com palestrantes de fora e refletindo com o grupo interno.

[PE] – Sustentabilidade, para o senhor e para a Engie, não se limita ao cenário ambiental.
Sattamini – Tratamos a sustentabilidade como um tripé: meio ambiente, responsabilidade social e rentabilidade. Cada um desses elementos tem o mesmo nível de importância para nós.

[PE] – Como manter o equilíbrio entre os três pilares em nosso país, que atravessa um período de crise já tão prolongado?
Sattamini – Estamos no Brasil para investimentos de muitos e muitos anos. Quando se investe em uma usina, estamos falando em pelo menos 25 anos de responsabilidade com aquele empreendimento. O momento que o país vive é ruim e obviamente afeta a rentabilidade. Mas não estamos aqui para resultados imediatos. Nossos programas de investimentos continuam a existir. Podem até ser postergados, mas serão cumpridos. É preciso continuar plantando a semente hoje para ter o que colher amanhã.

[PE] – O senhor afirma que os investimentos serão executados. mas há dificuldades.
Sattamini – Sim e não. Nesse momento de turbulência econômica o grupo tem mostrado a confiança no Brasil e tem feito investimentos de grande vulto. Eu diria até que o nosso grande passo aqui no Brasil se deu em um momento super crítico, quando adquirimos a Gerasul (parte de Geração de energia cindida da Eletrosul), em 1998. O mundo vinha de uma crise da Ásia, depois a crise da Rússia, o mercado financeiro estava super arisco e, mesmo assim, o grupo, na época ainda Tractebel,  apostou. E foi por isso que nós conseguimos a posição de relevância no Brasil. De lá para cá, vários investimentos foram realizados mesmo em momentos de mercado receoso. Exatamente pelo que eu disse anteriormente: não temos visão de curtíssimo prazo. Participamos de leilões, comprometemos capital, aplicamos recursos, mesmo com essa incerteza na esfera política que estamos atravessando. O governo passa. O país segue. E estamos atuando em uma atividade fundamental para o crescimento econômico, que é energia. Não tem como largar no meio do caminho.

[PE] – Soma-se à instabilidade política e à crise econômica a falta de regulações ou regras confusas. Como a Engie supera isso?
Sattamini – Ainda que regulatoriamente a gente sofra com algumas decisões do governo, temos a consciência de que no longo prazo a gente consegue um diálogo, não importa de que linha o governo seja. Se tiver bons propósitos e bons princípios haverá diálogo e entendimento em um ambiente saudável para o nosso negócio. Agora mesmo estamos fazendo movimentos junto ao governo, para resolver problemas específicos do setor, principalmente com relação à crise hídrica, que nos afeta desde 2013. Precisamos recuperar algumas perdas que nós tivemos e o governo se mostrou aberto. Acreditamos que vamos ter uma mudança regulatória favorável para o setor. São ciclos. As inconsistências se corrigem ao longo do tempo. É um processo de longo prazo, assim como nossas decisões enquanto empresa. Olhamos em um cenário de 25, 30, 35 anos. Claro que não podemos perder dinheiro no curto prazo, mas sabemos que no longo prazo vamos conseguir a sustentabilidade.

[PE] – Hoje a Engie produz energia a partir de todas as fontes de energia?
Sattamini – Nas tradicionais e nas novas tecnologias de geração de energia. E estamos descarbonizando. Ou seja, temos ativos de termelétrica a carvão em Santa Catarina, o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, de Capivari de Baixo, que colocamos à venda. Tínhamos uma unidade muito antiga no Rio Grande do Sul que começamos a desativar em 2015; e temos outra usina em construção no Rio Grande do Sul, que  conquistamos em leilão, mas também vamos vender. Esta deve entrar em operação no primeiro semestre de 2019.

[PE] – E as novas?
Sattamini – Estamos mais centrados no Nordeste, com as eólicas; biomassa em São Paulo, e fonte hídrica em diferentes estados. Temos geração em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, em Goiás, Tocantins, Maranhão, Minas Gerais e Mato Grosso.

[PE] – Com todos esses empreendimentos, qual a participação da Engie no total de energia gerado no Brasil?
Sattamini – A Engie, com aproximadamente 7%. A Engie Brasil Energia, aproximadamente 6%, por conta das participações em consórcios.

[PE] – Qual a meta?
Sattamini – A intenção é manter a participação. Mas não é assim que calculamos nossa evolução, com base no percentual sobre o total de energia produzido no país. Olhamos para projetos, rentabilidade e sustentabilidade. Crescemos em momentos em que a decisão técnica indica bom retorno.

[PE] – Como foi o resultado da Engie em 2017?
Sattamini – Tivemos um recorde com R$ 2,05 bilhões de lucro líquido, com quase 30% de crescimento sobre 2016. Tivemos uma gestão bem mais ativa do nosso portfólio, nos antecipamos à crise hídrica e alcançamos uma performance operacional melhor, com redução de custos.

Foto: Fernando Willadino