Por: SC Portais

Como já é tradicional no final de ano, o presidente da Federação das Indústrias (Fiesc), Glauco José Côrte, reuniu jornalistas para fazer uma avaliação da economia, apontar desafios a serem enfrentados e as perspectivas. Apresentou uma série de números positivos de 2017 em comparação com 2016 e chamou a atenção para os riscos que podem vir com a escolha do novo mandatário do país. Ainda assim, manteve o tom otimista, principalmente quanto à perseverança dos industriais e a qualidade dos trabalhadores catarinenses, vantagens competitivas inegáveis. Depois da entrevista coletiva, o líder industrial conversou separadamente com a reportagem da Coluna Pelo Estado. Falou sobre o interior do estado, da retomada do ritmo de atividade de setores tradicionais da nossa economia, da necessidade de investimentos em infraestrutura e sobre a sucessão da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em outubro de 2018.
Na avaliação de Côrte, já no final do ano passado a economia catarinense dava sinais de retomada do fôlego, em grande parte por conta da diversificação dos setores. Para confirmar a tendência, as indústrias do estado investiram
fortemente em tecnologia e inovação, mesmo no período mais crítico. “Uma vantagem competitiva que temos em Santa Catarina sobre a maioria dos outros estados é que estamos há mais de dez anos sem reajuste do ICMS, o que garante um ambiente mais favorável às atividades produtivas”, considerou. Otimista, o presidente da Fiesc aposta em um 2018 de “consolidação do crescimento” e, portanto, bem melhor que 2016 e 2017. Em contrapartida, apontou alguns riscos. “Nas próximas eleições nós podemos ter um governo de continuidade das reformas e da modernização do ambiente institucional ou um governo que retroceda, que impactará negativamente a economia.” Ao longo da conversa com os jornalistas, Glauco Côrte reforçou em diferentes oportunidades a urgência da reforma da Previdência, dando até mesmo mais destaque do que à reforma Tributária. Para ele, a reforma previdenciária é condição para que os investidores se voltem novamente para o Brasil.

[PE] – A ocupação da capacidade  instalada da indústria catarinense, na média anual, é representativa? Glauco Côrte – Entre 80% e 90%, consideramos que é uma boa ocupação. Gradativamente nós estamos retomando a utilização da capacidade. Acredito que em 2018 a maior parte das nossas indústrias chegarão ao índice histórico, sempre superior a 80%.

[PE] – Privatizações, concessões e parcerias público-privadas são suficientes para recuperar o atraso do estado e infraestrutura? Glauco Côrte – O governo federal e o governo estadual não têm recursos suficientes para investir na infraestrutura. Por vezes falta até mesmo para a manutenção do que já existe. Acredito que concessão, privatização e PPPs são a saída para o problema. No caso das rodovias, com cobrança de pedágio, mas o investimento não deve ser considerado no valor, para não torná-lo muito caro. É aí que o governo tem papel preponderante. Algo precisa ser
feito, porque os próximos anos ainda serão muito difíceis para o setor público.
[PE] – O volume de investimentos ainda é baixo. Preocupa? Glauco Côrte – Tivemos uma influência, principalmente nos últimos dois anos, da operação lavajato. As principais empreiteiras do Brasil estiveram envolvidas e boa parte das obras foi prejudicada. Temos aqui o Monitora Fiesc, que acompanha as obras estaduais e federais, aponta que
60% das obras públicas estão paradas ou têm comprometimento no cronograma. Mas há recursos no mercado internacional para investir no Brasil. Precisamos de regras claras, taxas de retorno atraentes e segurança jurídica.
[PE] – O senhor deu destaque para a queda da inflação. É uma queda real ou motivada à queda da renda e ao recuo no consumo? Glauco Côrte – Durante o auge da recessão a inflação se manteve alta, provando que não há uma relação direta. O que há é inflação e política, expansiva ou não. A renda das famílias caiu com inflação alta e juros elevados e, mesmo depois que houve a queda de juros a inflação não caiu. Isso só aconteceu quando o governo começou a implementar medidas de ajuste fiscal. Concomitantemente, a renda da população voltou a crescer e isso não impactou em alta. A política do atual governo, de controlar seus gastos, é o que explica a inflação em níveis mais baixos.
[PE] – O governador Raimundo Colombo disse que várias novas empresas, incluindo indústrias, vão se instalar no estado em 2018. E elogiou a atuação da Fiesc nas negociações. Como se dá essa parceria? Glauco Côrte – Na verdade, são 140 projetos em avaliação. De 18 a 20, já podemos considerar como certos. Outros 49 estão com as conversações bem adiantadas. A maior parte ainda optando pela região Norte, que oferece melhor infraestrutura, como o bom número de portos. Nós, governo e Fiesc, sempre tivemos uma relação de proximidade. Com o Programa de Desenvolvimento da Indústria, sentimos a necessidade de centralizar o atendimento, de forma que o investidor tenha a possibilidade de, em um mesmo dia, conversar com os nossos técnicos e com os do governo. A experiência levou à criação do Criamos a InvestSC, sem a necessidade de o Estado abrir nenhuma nova vaga pública. É o único
caso do país de uma parceria público – privada para atrair investimentos. Nas reuniões mostramos as nossas vantagens: terra disponível, vocação industrial e exportadora forte, trabalhador qualificado, relação afinada entre o
setor público e o privado, sem aumento de impostos, piso estadual negociado entre trabalhadores e empresários, sem a interferência do governo… e Santa Catarina está se destacando como um estado inovador, com muitas startups,
das quais inúmeras se consolidam como empresas.
[PE] – Que setores tiveram maior crescimento em 2017 no estado? Glauco Côrte – Alguns dos nossos setores mais tradicionais: alimentos, têxtil, metalmecânico, calçadista, madeira e mobiliário. Eles estão mais concentrados em determinadas regiões, o que acaba impactando de forma positiva o estado como um todo. O setor cerâmico também começa a reagir, tanto pela retomada das reformas quanto pelas exportações, mas ainda espera a retomada da construção civil.
[PE] – Em 2018 acontece uma nova eleição na CNI. O senhor vai concorrer? Glauco Côrte – Não. Meu mandato aqui vai até julho do ano que vem e o da CNI, até outubro. É uma tarefa muito difícil. Um processo complexo. O atual presidente, Robson Braga de Andrade, deve ser reconduzido e o mais provável é que eu esteja na diretoria.
[PE] – Uma mensagem para o industrial catarinense. Glauco Côrte – A mensagem é de otimismo em relação ao futuro da nossa economia. O industrial catarinense está preparado para um novo ciclo de crescimento porque não deixou de investir, mesmo no momento mais agudo da crise. Portanto, tem condição mais favorável agora, na retomadado crescimento.