Por: Nelson Luiz Pereira | 18/12/2017

Normalmente o clima natalino tem a magia de nos poupar, momentaneamente, do sentido cartesiano de existência. Como tem, por um lapso de tempo, o poder de elevar nossas ações e ressignificar nossas relações. No entanto, absorver esse clima mágico e incorporá-lo, permanentemente ao cotidiano, é para sociedades que ascenderam a padrões diferenciados de coexistência. Ao longo do curso da história, o homem desenvolveu muitos modelos de sociedade. É natural que tenha sido assim, pois, por essência somos gregários cujo meio de sobrevivência e desenvolvimento é, determinantemente, a sociedade. Isso nos leva ao intrigante questionamento muito recorrente nas esferas antropológica e sociológica: moldamos a sociedade ou a sociedade nos molda? A priori, qualquer resposta de cunho dualista não se sustenta. Não há possibilidade de dicotomia entre homem e sociedade, pois, de forma interdependente, estes se constroem, se complementam e se desenvolvem mutuamente.

Dessa condição, deriva a sociedade organizada, produto resultante dessa dialética relação. O padrão de cada sociedade é proporcional ao grau de influência de fatores característicos como, cultura, valores, modelos estruturais políticos, econômicos e sociais. Traduzindo-se para nossa realidade local, focando especificamente a microrregião do vale do itapocu, o que observamos, e nos faz diferenciados, é um padrão elevado de sociedade organizada, colaborativa e solidária que nos configura. Status assegurado pela intensidade evidente de mobilização desse conjunto de fatores, orquestrado por entidades de classe, empresariado e cidadãos. Há aqui uma consciência mais acurada de unidade social, de senso de pertença, para o servir. Parece estarmos mais sintonizados com a visão de Oscar Wilde de que “viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. Aqui, de forma geral, não existimos por existir, mas nos inserimos. Oportuno destacar que, de acordo com a Declaração Universal do Voluntariado, aprovada pela International Association for Volunteer Effort, em 1990, essa prática consiste em uma escolha e motivação pessoal, livremente assumida, como forma de estimular a cidadania e o envolvimento comunitário, visando a valorização do potencial humano, a qualidade de vida e a solidariedade. Ressalta-se com isso que, o ato de servir não intenta compensar carências do Estado. Ela se orienta em atitude e perspectiva de uma sociedade atuante, mais justa, envolvida e responsável, desapegada do Estado, mas, que não se abdica em cobrar deste, as obrigações devidas.
A propósito, o terreno fértil para germinar e aflorar modelos de sociedade como o nosso é, substancialmente, o Estado mínimo. Que possamos continuar vislumbrando e contribuindo para um modelo de sociedade futura menos “high tech” (insensível e cartesiana) e mais “high touch” (que toca profundamente o coração das pessoas). Não há outro denominador comum, quanto ao propósito de nossa existência, senão o de ‘servir’.