Por: Nelson Luiz Pereira | 08/12/2017

Em tempos de polarização social, onde falar de política, religião, escola sem partido, racismo, ideologia de gênero, união homoafetiva, pena de morte, e outros estopins, é assinar um tratado de guerra entre as extremas classes, assumir uma posição ‘tolerante-centro-moderada’ frente a estas questões, é o mesmo que atravessar um ‘corredor polonês’. Mostrar-se neutro é ser sentenciado ao ostracismo. Tentar promover o debate, é assumir a pecha de terrorista intelectual. Essa tensão social é própria de nação pobre, órfã de Estado e, ao mesmo tempo, refém deste. Pode-se dizer que o processo se assemelha a um indivíduo estressado buscando motivos para descarregar sua abalada carga emocional. Nesta circunstância a coesão social perde densidade, uma vez que as classes e instituições buscarão defender, entrincheiradas, suas verdades, crenças e valores. São sintomas, embora incipientes, próprios de degradação democrática.

Pesquisas apontam que entre os países latino americanos, excetuando-se o Uruguai, a média de satisfação com a democracia gira em torno de 30%. Isso nos leva a presumir que, isoladamente, nosso índice seja sofrível. Precisamos considerar, entretanto, que no Brasil o baixo nível de politização social faz com que a satisfação com a democracia tenha estreita e imediata relação com o perfil e qualidade do governo. Então, se agregarmos a esta variável o atual cenário brasileiro, apostaria num índice de mais ou menos 10%.

A sensação é de termos chegado a uma fronteira da qual nos cabe indagar: uma crível ditadura seria melhor do que uma desacreditada democracia? Independente de qual possa ser a resposta, a consequência é de que o atual ambiente é propício para o ‘populismo’ e ‘salvadores da pátria’.

Minha inquietude diante de tais questões, desintegrou-me em uma viagem de volta ao tempo, reintegrando-me precisamente à mesa de um café parisiense, na companhia do pai da democracia moderna, Jean-Jacques Rousseau, em pleno iluminismo do século XVIII. Surpreso, perguntou-me o nobre pensador, sobre minha origem. Disse-lhe que vinha de uma nação distante, onde se ensaiava democracia. Interpelou-me se nesse ensaio o poder legislativo era exercido por representantes do povo. Receoso, apenas assenti com a cabeça. Se pôs contemplativo, bebericou seu chá e com um olhar distante especulou: “Vocês estão passando por sérios problemas, estou certo?” Assenti novamente com a cabeça, mas agora com um olhar patético. Então, justificou: “As leis são as condições da associação civil. O povo submetido às leis deve ser o seu autor. Sendo assim, o legislativo deve ser assumido diretamente pelo soberano, o povo, e essa soberania não se transfere”. E intensificando minha inquietude, despediu-se com o seguinte postulado: “uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém”.