Por: Nelson Luiz Pereira

Estamos encerrando mais um ‘esquecível’ ano em meio à polarização e contínua instabilidade social, política e econômica. A sensação que nos aflora é de que a ‘Ordem e Progresso’ só se darão por meio do poder temível do Estado ou pela insurgência do povo. Embora esses dois caminhos possam representar retrocesso, o fato é que a atmosfera social brasileira está impregnada de todos os elementos desencadeadores de um fenômeno que proponho denominá-lo ‘motim nacional’. Quando uma nação, como a nossa, atinge o status de miserável no sentido lato, uma tensão silenciosa propaga energia coletiva à revelia do Estado, à revelia das leis, à revelia do bem-estar geral. Neste estado de tensão, a ética do medo, seja ela aplicada pelo ‘paredão’ ou ‘dedo em riste’, é sobrepujada pelo ceticismo e desobediência civil.

Por esse prisma, se tomarmos por fundamento o que nos revela Victor Hugo, em sua clássica obra prima “Os Miseráveis”, eu diria que um latente motim já se instaurou na consciência dos brasileiros pois, nunca se mostraram tão evidentes na sociedade, “as convicções irritadas, os entusiasmos exasperados, as indignações emocionadas, os instintos de guerra comprimidos, as jovens coragens exaltadas, as cegueiras generosas; a curiosidade, o gosto pelas mudanças, a sede pelo inesperado…os ódios vagos, os rancores, os desapontamentos, todas as vaidades que acreditam ser vítimas de uma bancarrota do destino; a falta de meios, os sonhos vazios, as ambições rodeadas de dificuldades, os que esperam de um desabamento uma saída; finalmente, no nível mais baixo, a turba, essa lama que se incendeia”.

Numa nação de miseráveis, cada cidadão, independente de condição ou classe, carrega consigo porção maior ou menor de “seres que vagam excluídos de tudo, à espera de uma oportunidade, boêmios, gente sem ocupação, vagabundos das ruas, os que à noite dormem em um deserto de casas sem outro teto que as frias nuvens do céu, os que, a cada dia, pedem seu pão ao acaso e não ao trabalho, os desconhecidos da miséria e do nada, os braços nus, os pés descalços”. Uma nação miserável dissimula sua miséria mirando, como referência, nações com grau maior de miséria. Acalenta-se com a tragédia de existir alguém pior. No entanto, penso que a mais indigente das nações não é aquela miserável por opressão, mas a miserável por opção.

Olhando para o Brasil, percebo um esgotamento de nossa histórica e reinante condição de miseráveis por opção, deitados em berço esplêndido. Miseráveis por opção fazem um Natal indigno parecer feliz. Assim tem sido nossos Natais. Mas parece estarmos fatigados dessa mambembe encenação. São sinais característicos de motim nacional. Que essa nuvem não se dissipe sem uma catastrófica tormenta, mesmo que signifique um passo atrás para em seguida avançar. Por ora seguimos com nosso feliz teatro natalino.