Por: Coluna Pelo Estado

Com uma trajetória de duas décadas junto às áreas industrial, de relações institucionais e de negócios internacionais, o consultor Henry Uliano Quaresma é membro de conselhos de entidades empresariais estaduais e nacionais, além de CEO da Brasil Business Partners.

Em sua análise sobre o momento atual da indústria catarinense, Quaresma destaca a importância do alinhamento das áreas públicas e privadas de Santa Catarina e a necessidade de reavaliar e fortalecer uma agenda unificada de ações estruturantes que possam alavancar economicamente nosso Estado. “É preciso atender o espírito empreendedor dos catarinenses e impulsionar nosso Estado a um futuro de constante desenvolvimento ”, alerta.

Quaresma é engenheiro com especialização em Marketing pela FGV, MBA em Administração Global pela Universidade Independente de Lisboa e Programas Executivos em Estratégia de Gestão pela Wharthon School  e Insead. Também atuou como diretor de relações industriais e institucionais da Fiesc.

Nesta entrevista à coluna Pelo Estado, ele trata dos riscos da perda de complexidade da economia brasileira, do fantasma da desindustrialização e da necessidade competitiva da 5G.

 

Muito se tem falado sobre a perda de complexidade da economia nacional. O Brasil enfrenta risco de desindustrialização?

Na última década, o Brasil teve uma significativa redução da participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB). Os 15% registrados em 2010 reduziram-se para  11,3% em 2020, sendo este o mais baixo percentual do BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Já a indústria brasileira como um todo – transformação, extrativa, etc -, chega a 20,4% de participação no PIB.

A indústria de transformação também tem perdido a importância nas exportações brasileiras, passando de 72,4% em 1997 para 48,5% em 2020, conforme a CNI (Confederação Nacional da Indústria). Mesmo com uma participação menor nos produtos de alta complexidade, a indústria nacional tem a excelente característica de ser muito diversificada, inclusive mais do que em países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o que auxilia a amenizar os impactos.

Esse quadro aponta a necessidade da retomada do crescimento econômico com uma política industrial de incentivos à inovação e de melhoria do ambiente de negócios. Neste caso, é preciso reduzir o  famoso Custo Brasil – dificuldades estruturais, tributárias e burocráticas -, com a abertura de financiamentos para o setor, investimentos em infraestrutura e aprimoramento da eficiência do Estado.

Qual a real importância da indústria para a economia brasileira?

Não é possível prescindir da indústria, pois ela é estruturante no desenvolvimento de qualquer lugar. Sempre que há uma indústria, há desenvolvimento e geração de renda.

Nossa indústria gera 33% dos tributos federais, responde por 20,4% dos empregos formais no Brasil e promove cerca de 70% dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento no País.

Portanto, a indústria traz empregos, proporciona crescimento econômico, melhora o padrão de vida das pessoas, proporciona desenvolvimento tecnológico e inovação, reduz desigualdades regionais e contribui fortemente com as exportações, proporcionando divisas ao país. Por isso que todos governantes, como é o caso dos prefeitos, querem indústrias em seus municípios. Ela estrutura o desenvolvimento.

Conforme a CNI, a cada R$ 1 adicionado na indústria de transformação é gerado um crescimento adicional no PIB do país de R$ 1,67, totalizando um aumento de R$ 2,67 no PIB.

Foto Divulgação

 

“Nosso Estado traz um cenário mais positivo que o nacional e ostenta melhores indicadores de produção e geração de empregos”

O que é preciso fazer para manter a nossa indústria à frente?

Temos que aprimorar o ambiente de negócios para a retomada do crescimento. Isto envolve diversas dimensões, como o próprio Custo Brasil, determinado por toda a ambientação inserida da indústria, como infraestrutura de transportes, energia, financiamento, eficiência do Estado, educação, redes de internet e outros fatores. Em outra dimensão estão as questões setoriais, abrangidas por uma política industrial e comércio exterior e existe também a dimensão interna relativa ao empreendimento, como gestão, capacitação, equipamentos e tecnologia da própria empresa.

Isso passa também por um fortalecimento em ações específicas de inovação nos setores que produzem bens mais complexos, que exigem mais tecnologia. Neste momento, um ponto muito importante para a ampliação da competitividade é o uso da alta tecnologia, como a indústria 4.0 e a tecnologia de telecomunicações (internet) 5G.

A indústria 4.0 representa a automação industrial, integrada e sinérgica com a inteligência artificial, a internet das coisas e a computação em nuvem. Tudo com grande conteúdo tecnológico. Para que isso faça sentido no escopo da competitividade, será fundamental o suporte da internet 5G. Enquanto a velocidade da 4G é no máximo 1 Gbps (gigabit por segundo), a 5G chega a 20 Gbps, permitindo inúmeras novas aplicações. Tudo com grande conteúdo tecnológico. Muitos novos negócios poderão ser criados, muitos avanços  e muitos impactos serão sentidos em alguns setores que não estiverem preparados para esta mudança.

Como está sendo aplicada a 5G no mundo?

A 5G está funcionando em 65 países e 1.600 cidades no mundo, conforme pesquisa da Viavi Solutions, empresa especializada nesta área. Os países mais adiantados são os EUA, China e Coréia do Sul, segundo a CNI. A tecnologia  está presente em 1.336 cidades no mundo, sendo 341 na China, 279 nos EUA, 85 na Coréia do Sul, seguidas por 54 cidades no Reino Unido e 53 na Espanha. Está havendo um crescimento acelerado no mundo, sendo que só  no primeiro semestre de 2021 ocorreu um incremento de 350%, também conforme dados da CNI

Como está a previsão da 5G no Brasil?

Conforme informações do Ministério das Comunicações, o leilão das licenças de serviços 5G deverá ocorrer entre o mês de outubro e novembro deste ano. Caso ocorra o atraso de um semestre ou mais teremos um grande impacto negativo para a competitividade brasileira, se compararmos com outros países que são nossos concorrentes.

Além da indústria, a 5G irá alavancar o setor de telecomunicações, as novas tecnologias, a realidade aumentada, a logística nacional,  as cidades inteligentes e, consequentemente, a economia como um todo, envolvendo as áreas de serviços, comércio, agricultura e serviço público.

Além do aumento da velocidade, a 5G proporciona aumento de raio de abrangência e incremento de aparelhos interconectados, o que terá grande impacto para nossas áreas rurais que atuam no agronegócio. No caso do serviço público, poderemos uma eficiência incrível, adequando os processos burocráticos de atendimento ao cidadão. Será uma revolução.

Penso que as agências de fomento e bancos de desenvolvimento teriam também que disponibilizar linhas de crédito específicas para as empresas poderem adequar melhor a esta “nova breve realidade”.

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“Com relação a 5G, teremos muitos benefícios com a absorção da tecnologia nas empresas, contribuindo com a competitividade”

Qual a situação das indústrias catarinenses?

A indústria de Santa Catarina teve uma participação geral de 26,7% no PIB total do Estado em 2018. Em 2010, era de 32,7%. No caso específico da indústria de transformação, a participação no PIB em 2010 era 22,3% e em 2018 foi de 19,7%, conforme IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Portanto, nosso Estado traz um cenário mais positivo que o nacional e ostenta melhores indicadores de produção e geração de empregos. Isso porque a indústria catarinense é fortemente diversificada, inovadora  e exportadora. E com relação a 5G, teremos muitos benefícios com a absorção da tecnologia nas empresas, contribuindo, portanto, com a competitividade.

No entanto, o desafio de Santa Catarina é avançar mais no processo de industrialização, o que pede muita atenção. A Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina) tem atuado decisivamente ao mostrar caminhos para ampliar a competitividade e fortalecer o setor. Em sua recondução à presidência da Fiesc, no dia 12 de agosto, Mário Cezar de Aguiar reforçou a meta de  aumentar a industrialização em nosso Estado.

Também é fundamental que as áreas do setor público e dos setores produtivos estejam alinhadas no cumprimento de uma agenda com ações concretas e estruturantes. Na entrevista concedida a esta coluna na última semana, o governador Carlos Moisés destacou que o Estado está saneado, o que é muito importante e figura como uma grande vantagem competitiva de Santa Catarina. Agora é preciso colocar foco na infraestrutura e na inovação, que são chaves mestras para atender o espírito empreendedor dos catarinenses e impulsionar nosso estado a um futuro de constante desenvolvimento.

Ewaldo Willerding