Por: Coluna Pelo Estado

O superintendente de Vigilância em Saúde (SUV) de Santa Catarina Eduardo Macário é doutor em epidemiologia, com mais de 20 anos de experiência na área de Vigilância em Saúde, sendo 14 anos no Ministério da Saúde, onde atuou como Diretor de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças não Transmissíveis e como Secretário de Vigilância em Saúde Substituto.

Com todo esse currículo, Macário ajuda a comandar a campanha de vacinação contra a Covid-19 no estado e classifica como positiva a estratégia adotada, que já imunizou mais de 80% da população adulta com a primeira dose e 40% com a segunda dose.

Nesta entrevista exclusiva à coluna Pelo Estado, Eduardo Macário alerta para a importância da vacina, que considera “eficiente e segura”, chama a atenção para a importância da dose 2 e aponta para o final de novembro como data para que mais de 90% dos moradores de SC com a estratégia completa.

Confira:

Concluída a etapa de vacinação de adultos com 18 anos ou mais, qual o balanço que pode ser feito sobre a estratégia de imunização?

O Governo do Estado considera esta etapa concluída porque todos os municípios catarinenses já oferecem vacina para a população de 18 anos ou mais. Não tem mais aquelas restrições de só idosos ou de pessoas de determinados grupos. Agora,  qualquer um de 18 anos ou mais pode tomar a vacina, basta procurar um posto para fazer a vacinação e o posto precisa ter as doses. Agora nós estamos iniciando uma outra fase da campanha. Mas é bom destacar que nenhuma pessoa de 18 anos ou mais vai ficar sem vacina, ela terá que ter as doses disponíveis. E o que a gente viu até agora foi que mais de 80% da população adulta já recebeu a primeira dose e chegamos a 40% da população adulta que já recebeu a segunda dose. Isso é bom. Só que a gente precisa avançar, principalmente para a segunda dose. Porque não adianta ficar só na primeira dose. Para a pessoa estar protegida das formas graves da Covid e dessa variante Delta tem que tomar duas doses. Tem ainda as pessoas que não se vacinaram, que são em torno de 10%. Independentemente do motivo que levou essa pessoa a não se vacinar, ela pode procurar os postos porque o que estamos vendo é que há uma queda muito grande de hospitalizações, casos graves e mortes por Covid em todo o Estado. Então, é um balanço positivo, é uma população difícil de ser vacinada, uma população adulta, embora aqui em Santa Catarina não tenha havido tanto resistência, as recusas foram mínimas, o que mostra que a população aderiu bem à vacinação, que é a principal forma de nós superarmos essa pandemia.

 

O senhor destacou que o número de hospitalizações caiu significativamente no Estado, mesmo assim muitas pessoas ou não foram tomar a segunda dose ou nem foram tomar dose alguma. O que mais é preciso fazer para conscientizar essas pessoas?

O primeiro a se destacar é que as vacinas existem desde o século passado, com elas foi possível erradicar doenças como a varíola e controlar ou até eliminar as formas graves de doenças como o sarampo, febre amarela, por exemplo. E a gente tem a vacinação das crianças como uma rotina dentro do SUS.  Os bebês nascem e tomam até o primeiro ano uma série de vacinas contra sarampo, pólio, rubéola, caxumba, formas graves de tuberculose, etc. E isso fez com que a nossa expectativa de vida como seres humanos aumentasse muito, porque aquelas doenças que causavam aflição na população antes da era das vacinas praticamente estão controladas. O mesmo acontece com a vacina contra a Covid. As pessoas até se assustam e dizem: “mas foi uma vacina desenvolvida em pouco tempo”. Mas nós estamos no Século 21, a ciência avançou muito e estas plataformas de vacina que estão sendo utilizadas agora estavam sendo preparadas para estas situações. Para que num curto espaço de tempo pudéssemos ter uma vacina elaborada, testada e aplicada para a gente prevenir a ocorrência de óbitos. Aqui em Santa Catarina nós tivemos mais de 18 mil mortes por Covid, além das pessoas que até hoje estão com sequelas. E o que a gente quer com a vacina é justamente proteger para que as pessoas não tenham forma grave de Covid e que não ocorram tantos óbitos como ocorreram no ano passado. Para isso, as pessoas precisam entender que a vacina é segura, eficaz, protege e veio para ficar. Ela veio, inclusive, para proteger contra as variantes novas, como a Delta. O vírus acaba sofrendo mutações e mesmo assim a vacina consegue proteger. Não vejo sentido nas pessoas colocarem em dúvida a vacinação, sendo que ela já protegeu e salvou tantas vidas nesses últimos meses.

Foto Júlio Nascimento/PR

“As pessoas até se assustam porque a vacina foi desenvolvida em pouco tempo. Mas nós estamos no Século 21, a ciência avançou muito.”

Quanto ao envio de doses, foi no ritmo que vocês esperavam?

Esse foi um dos grandes diferenciais dessa campanha: a falta de doses. Nós estamos numa campanha que começou no final de janeiro, já estamos chegando no oitavo mês com pessoas ainda sendo vacinadas. A quantidade de doses variou muito, teve meses que a entrega foi muito baixa e em outros foi acelerado. Nós consideramos que até por conta das circunstâncias, por ser uma vacina nova e com o mundo todo atrás dessa vacina, podemos dizer que o processo de entrega das doses foi bem cansativo. Mas agora não adianta olhar para trás, o importante é que a gente conseguiu cumprir a meta de vacinar quase 80% com a primeira dose e esperamos que mais de 80% tomem as duas doses.

Ainda são esperadas mais doses?

Nós temos a perspectiva de receber mais doses, o próprio Ministério da Saúde anunciou a compra de 20 milhões de doses nos próximos meses e até o final do ano mais 100 milhões de doses, o que vai ser suficiente para vacinar aquelas pessoas que ainda não se vacinaram por qualquer motivo e também fazer a vacinação dos adolescentes de 17 a 12 anos com a vacina da Pfizer, que todos os municípios estão autorizados, assim como aplicar a dose de reforço nos idosos com mais de 6 meses do esquema vacinal completo.

Como vai funcionar este próximo passo da campanha?

O que nós estamos aguardando é a chegada de novas doses. O Ministério da Saúde nos encaminhou esta semana mais de 300 mil doses para completar os esquemas vacinais, a dose 2. Nós estamos na pendência de que o ministério nos envie mais doses 1 para que a gente possa ampliar e vacinar adolescentes dos grupos prioritários, que são os portadores de comorbidades, com deficiências permanentes, gestantes, puérperas e lactantes. Além desses adolescentes, os que não fazem parte desses grupos serão atendidos pela faixa etária, em ordem decrescente: 17 anos, 16 e assim em diante até 12 anos. A estimativa é de aproximadamente 545 mil adolescentes.

E como será a estratégia de reforço para os idosos?

Os idosos com mais de 6 meses do esquema vacinal completo, ou seja, as duas doses ou aquela vacina de dose única, vão receber uma dose de reforço. Porque os idosos já têm uma tendência a ter uma resposta vacinal menor, nós consideramos que após seis meses uma dose de vacina seja aplicada justamente para que o sistema imunológico possa produzir mais células, que são os anticorpos de memória e que esses anticorpos de memória possam ficar mais tempos protegendo o idoso. Essa é a importância desse reforço. No começo da campanha nós tivemos uma redução de mais de 75% de mortes em idosos acima de 80 anos porque eles já estavam vacinados. Agora, com o tempo, a gente passou aquela onda em março, abril com muitas mortes e pessoas internadas, mas a maioria era de pessoas não vacinadas. A maioria dos idosos estava protegida. E agora é a hora de proteger ainda mais eles com essa dose de reforço.

Foto Divulgação

“Vamos ter que tomar vacina todo o ano, ela não vai conseguir erradicar o vírus. O objetivo é com que as pessoas produzam anticorpos que vão proteger contra uma infecção grave.”

O senhor imagina que de agora em diante a gente vá precisar tomar vacina contra a Covid todos os anos?

Eu não tenho dúvida que sim. A vacina não vai conseguir erradicar o vírus. O objetivo da vacina é fazer com que as pessoas produzam anticorpos que vão proteger contra uma infecção grave como é a Covid. E a partir do momento em que as pessoas têm os anticorpos essa infecção por coronavírus pode passar a ter sintomas mais leves, tipo um resfriado comum. E com toda a população protegida a gente vai ter cada vez menos casos graves e mortes. Mas o vírus não será eliminado. Por isso a gente insiste: como neste momento ainda não temos toda a população vacinada com as duas doses é importante que o número de casos ativos diminua. Para isso, além da vacinação, é importante usar máscara, manter o distanciamento social, ficar em ambientes arejados e a etiqueta da tosse. Essas são medidas que não serão abandonadas tão cedo. Eu acredito, sim, que todo ano a gente vá receber uma dose, assim como é contra a Influenza.

O senhor consegue projetar uma data em que toda a população catarinense esteja imunizada?

Eu confio muito na capacidade das equipes de saúde dos municípios, do estado e na adesão da população, que está querendo se vacinar, e acredito muito que até o final de novembro nós teremos mais de 80% da população acima de 12 anos vacinada com as duas doses. Nossa esperança é ter até mais, 90% e por aí vai, mas com 80% da população vacinada nós podemos ter, a partir de dezembro, um Natal mais seguro com as nossas famílias, a gente tenha uma retomada do turismo, do comércio e das atividades culturais, etc. Mas para isso acontecer todos precisam entender que a vacina é a melhor forma de prevenção. Ou seja, 80% é uma projeção mais conservadora. Agora, sendo otimista mesmo, acredito que mais de 90% da população irá receber as duas doses e ficará protegida no final de novembro, para termos um Natal e um Ano Novo muito mais tranquilo e possa colocar uma pedra em cima disso e aprender com as lições e com tudo o que aconteceu.

Ewaldo Willerding