Por: Coluna Pelo Estado

Entrevista
Alice Kuerten

O momento de pandemia tem sido mais cruel justamente com aqueles que mais precisam de ajuda. E como a situação não é só de uma crise sanitária, mas também econômica e social, as próprias instituições que apoiam os mais necessitados têm enfrentado problemas. Ao completar 20 anos de fundação, comemorados no próximo 17 de agosto, o Instituto Guga Kuerten tem muito a comemorar e também a nos ensinar.

Em entrevista à Coluna Pelo Estado, a presidente da entidade que leva o nome maior atleta catarinense, Alice Kuerten nos conta um pouco como o Instituto Guga Kuerten não tem medido esforços para manter o atendimento mínimo às famílias.

Uma história que nasceu com o amor pelo esporte e pelo próximo e que atualmente atende mais de 500 crianças e coordena cerca de 500 projetos para atendimento de crianças e adolescentes com alguma deficiência em situação de vulnerabilidade.

“Estamos tentando atuar como um suporte neste momento para enfrentar toda essa situação, seja economicamente com as ações de alimentação, seja psicologicamente ou educacionalmente”, Alice Kuerten.

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[Pelo Estado]  – Como é chegar aos 20 anos de ações sociais e em um momento tão delicado para todos?

Alice Kuerten – Quando criamos o Instituto, nós tínhamos em mente que seria uma coisa perene, um Instituto que a gente pudesse passar depois para os filhos, os netos, essa sempre foi a intenção, desde o começo. Obviamente que atravessamos momentos difíceis nesses 20 anos, passamos por duas crises. E como não temos nenhuma parceria direta com poder público, nos mantemos com apoios da iniciativa privada através das leis de incentivo, é claro que também somos impactados.

Com essa a crise que estamos passando, diminui também a parte de investimentos que eles podem fazer. No nosso caso, esta não é a primeira vez que passamos por esses momentos de crise, e aprendemos com experiências passadas a nos moldar de acordo com a necessidade. Hoje, com essa crise atual, nossas crianças estão praticamente paradas em termos de atividades presenciais. Isso nos deixa muito triste porque sabemos que não podemos atendê-las da melhor forma.

Atualmente nós estamos fazendo atendimento de cerca de 500 crianças via online e também levando atividades para eles. Uma vez por semana os professores fazem visitas nas casas das crianças, entregamos kits para eles desenvolverem as atividades em casa, com a família, e também é feita as avaliações da situação de cada um. Com isso nós também conseguimos a identificar quem são as crianças ou famílias que estão precisando de atendimento emocional, com a psicóloga, além de darmos um suplemento com cestas básicas para o dia a dia que ficou muito difícil para muitas famílias dos nossos alunos.

Temos situação de pais que vivem de subempregos e alguns que até perderam seus trabalhos. Então, desde abril nós estamos atendendo as 150 famílias mais necessitadas com uma cesta que é entregue semanalmente, todas as quintas-feiras.

Estamos tentando atuar como um suporte neste momento para enfrentar toda essa situação, seja economicamente com as ações de alimentação, seja psicologicamente ou educacionalmente, para isso temos um corpo técnico com psicólogas, pedagogas e assistentes sociais.

[Pelo Estado]  – Então o número de empresas parceiras diminuiu nesse período?

Alice Kuerten – Nós até conseguimos algumas parcerias, primeiro começamos só com recursos próprios, com ajuda da família, dos próprios recursos do Instituto, e depois conseguimos algumas parcerias que estão sendo muito importantes Agora em agosto também há a promessa de novas parcerias. Inicialmente, a nossa ideia era dar esse apoio às famílias até junho, agora estendemos até setembro. Vamos ver até onde essa situação vai, se for preciso nós vamos seguir dando esse apoio que é tão importante para as famílias. E tudo isso é motivo para estarmos contentes com os resultados do Instituto.

[Pelo Estado]  – Dentre as ações do Instituto, tem alguma que se destaque e que está com dificuldades para ser executada?

Alice Kuerten – Todas as nossas atividades foram afetadas. Mas um projeto que nos orgulha muito e que vai ter que esperar um pouco mais é o Fundo de Apoio a Projetos Sociais, que ajuda as instituições que atendem pessoas com deficiência. Com esse projeto nós conseguimos chegar em 187 municípios, com 500 projetos. Nós já corremos o estado, nessas 187 instituições duas vezes. Agora, nós estávamos nos preparando para o terceiro ano dessas visitas, começamos pela região de Blumenau e pretendemos seguir.

Esse é um projeto que requer a visita nas instituições, eu visito cada uma delas, fazemos assessoria técnica de todos os projetos beneficiados, atendemos as questões técnicas quanto a administração, oferecemos a capacitação, que é um grande ganho para as instituições, mas nesse momento essas visitas estão suspensas por conta da pandemia. O que estamos fazendo é o repasse das verbas, para que as instituições possam também aplicar, como é o caso das obras, mas não estamos fazendo o acompanhamento lá no local.

Para outubro estava previsto o início do projeto no Planalto Norte, mas ainda estamos em compasso de espera, porque as próprias instituições que fazem os atendimentos aos deficientes não estão atendendo. Então não temos nem como pedir que as instituições elaborem projetos para serem beneficiados. Esse é um dos projetos que a gente se orgulha muito.

[Pelo Estado]  – Existem planos para ampliar as pessoas atendidas para além do estado de Santa Catarina?

Alice Kuerten  – Nós nos propusemos a trabalhar em Santa Catarina para devolver para o estado nossa contribuição. Sempre pensando em como o Guga começou, e por ter sido tão bem acolhido, as pessoas tanto viram nele um ídolo, uma pessoa que trazia alegria. Queremos retribuir esse carinho, esse acolhimento. Se fossemos pensar em uma instituição com atuação nacional talvez não conseguíssemos esses mesmos resultados porque com recursos limitados acabaríamos tendo que pingar um pouco em cada lugar e é possível que não teríamos resultados tão bons. E nosso estado precisa muito ainda de auxílio. As pessoas pensam que o Sul não precisa de ajuda, mas precisamos bastante.

Nos últimos anos, nós atendemos todas as calamidades que atingiram o estado, desde as enchentes de 2008, os vendavais em Xanxerê, onde as sete primeiras casas reconstruídas e entregues foram nossas. E sempre que atuamos nessas situações, nós elegemos como público alvo as famílias das instituições que atendemos.

[Pelo Estado]  – E para os 20 anos, alguma programação especial?

Alice Kuerten –  Nós sempre realizamos o Prêmio IGK, que premia reportagens, projetos e sempre trazemos atrações e apresentações de pessoas com deficiência, justamente para mostrarmos no que eles são eficientes naquilo que fazem. Mas virtude de toda essa questão da pandemia nós não conseguimos fazer o Prêmio. Mas certamente é uma data especial para a gente. E também estudamos a possibilidade de realizarmos um evento até o fim do ano, porque esse é o ano dos 20 anos da instituição, quem sabe conseguimos fazer algo.

Coluna Pelo Estado: Fábio Bispo e Nícolas Horácio