Por: Coluna Pelo Estado

Entrevista: Jean Castro, professor do  Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC.
Eleito na onda bolsonarista, o governador Carlos Moisés (PSL) desbancou as forças tradicionais do comando do executivo catarinense nas eleições de 2018. Na ocasião, recebeu 2.644.179 votos contra 1.075.242 do seu adversário no 2º turno, o candidato Gelson Merísio, à época no PSD, do então governador Raimundo Colombo. Ou seja, sete em cada dez eleitores catarinenses confiaram em Moisés. Embora tenha iniciado o governo com todo o respaldo do tsunami do 17, Moisés foi eleito mais pela fortuna, do que pela virtù. Depois de eleito, não teve virtù para aproveitar a oportunidade que lhe foi oferecida pela fortuna. Esta análise é do professor do  Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC, Jean Gabriel Castro da Costa, que recorre a Maquiavel, mais especificamente a obra clássica da ciência política, O príncipe, para refletir sobre o trabalho de Moisés à frente do governo de Santa Catarina. Graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado em Ciência Política pela USP e pós-doutorado em Filosofia, pela Brown University, dos EUA, o professor Jean Castro reflete, nesta entrevista, sobre a gestão de Carlos Moisés, o processo de impeachment que tramita contra ele na Assembleia Legislativa, as ações de enfrentamento a pandemia do governo e o clima das eleições municipais no estado.
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[Pelo Estado] Como avalia a gestão de Carlos Moisés? A falta de experiência na política o prejudica, ou ele se esforça para conduzir bem o estado?

Jean Castro – Com certeza, a maior fraqueza do Moisés é a falta de experiência política e como isso refletiu na falta de articulação política na Alesc, na formação do governo e na articulação com as forças políticas que existem no estado há muito tempo. Moisés não soube fazer isso e, se sofrer o impeachment, essa será a principal causa. Impeachment é um processo essencialmente político. O jurídico, muitas vezes, serve como desculpa para um impeachment, que é de natureza política. Isso porque Moisés é um outsider, desconhecido da maioria dos catarinenses até 2018 e conseguiu ser eleito por uma circunstância muito especial. Eu gosto de usar Maquiavel para explicar o que aconteceu com Moisés: ele foi eleito mais pela fortuna, do que pela virtù. Depois de eleito, não teve virtù para aproveitar a oportunidade que lhe foi oferecida pela fortuna. Posso explicar: fortuna é a sorte, aquilo que acontece de forma imprevista, podendo dar boa sorte ou má sorte. A fortuna de Moisés foi o tsunami de 2018. Aquela eleição foi marcada por um humor antissistêmico que prevalecia na maioria dos eleitores. A massa estava cansada da chamada velha política, por causa da corrupção, do trabalho da lava jato expondo a corrupção sistêmica. Esses fatores somados a crise econômica foram intensificando esse sentimento anti-sistêmico na maioria dos eleitores que resultou na ojeriza aos políticos e a força política que, em 2018, conseguiu captar esse humor e usá-lo a seu favor foi o bolsonarismo, mais especificamente os jovens olavistas que faziam a campanha de Bolsonaro, desde 2014. O Moisés foi eleito nessa onda antissistêmica e quase como um acaso acabou parando lá, porque nem bolsonarista raiz ele é.

 

[Pelo Estado] Aqui no estado o PSL está desconfigurado. Moisés não dialoga com os deputados e eles, inclusive, jogam contra ele. Como analisa essa questão?

Jean Castro – O problema é que, depois de eleito, Moisés se mostra não bolsonarista e dá uma entrevista para a Folha de São Paulo falando mal do Bolsonaro, ou seja, todos os eleitores que estavam entusiasmados com Bolsonaro ficaram de mal com Moisés e os deputados do PSL que eram bolsonaristas raiz romperam com o governo estadual, passando à oposição. Além de romper com a principal força política que o elegeu, Moisés não aderiu a outra força política existente, ficou no vácuo. Ele abandonou a força que o elegeu e, depois de eleito, não se apoiou a nenhuma outra força política. O governador se apoiou apenas em alguns poucos amigos próximos em que ele confiou – eu até diria – amigos em quem confiou até demais. Douglas Borba, por exemplo, o escândalo dos respiradores. Pessoas que vieram quase que do nada e chegaram ao poder principal e parece que começaram a se lambuzar. O Moisés chegou a falar que Douglas Borba era o braço direito dele. Aí veio o escândalo dos respiradores, uma acusação grave de mal uso da verba pública. Não vou prejulgar, mas a gente percebe que tem muita coisa esquisita aí.

 

[Pelo Estado] Qual sua análise do impeachment? Acha que o pedido avança?

Jean Castro – No momento atual, me parece que existem condições políticas para o impeachment, mas jurídicas, não sei. Até porque o pedido de impeachment atual é baseado no reajuste concedido aos Procuradores. Um pedido semelhante a esse foi rejeitado, mas esse novo foi reforçado, porque o Tribunal de Contas do Estado julgou ilegal o reajuste. Moisés está perdendo apoio na sociedade e o apoio político. temos uma crise econômica e uma pandemia, então, é todo um conjunto de circunstâncias em que, agora, a fortuna se voltou contra ele. Como ele não teve virtù para se preparar nos tempos de boa fortuna, ou seja, não fez as alianças corretas, não montou base na Assembleia, não nomeou pessoas de confiança para os cargos principais quando a fortuna estava boa, agora que a fortuna está contra ele, a situação fica mais difícil, mas não impossível. Tudo depende basicamente de dois fatores: a CPI dos Respiradores não atingir o governador e a vontade do presidente da Alesc. O deputado Julio Garcia é uma peça chave. É um dos políticos mais experientes e habilidosos da política catarinense atual. Está nas mãos dele, inclusive, o ritmo do processo de impeachment. Hoje quem está com a bola é o Julio Garcia e seus aliados. Outra força importante é o MDB, que tem a maior bancada na Alesc.

 

[Pelo Estado] E a investigação dos Respiradores, o senhor acha que vai diminuir ou fortalecer Moisés no desfecho?

Jean Castro – Isso pode acontecer, se for provado na Justiça que ele não tinha envolvimento com a compra irregular com certeza, ele consegue reverter. Se ele escapar ao impeachment e a CPI dos respiradores não o atingir, ele pode reverter, mas daí precisaria mudar o modo como está governando, ou seja, melhorar a articulação política, já que não está se apoiando mais no PSL, nem no Bolsonarismo como força na sociedade catarinense. Na verdade, Moisés não está se apoiando em nada, é até esquisito que ele não tenha sofrido impeachment ainda.

 

[Pelo Estado] Sem base social, sem base ideológica. Esse limbo é o que mais prejudica o governo?

Jean Castro – Ou Moisés ia para a política institucional e se aferrava nos partidos para construir um apoio sólido, com os partidos do chamado centrão, ou continuava pela via antissistêmica populista, só que para isso ele teria que fechar com o bolsonarismo, ficar mandando vídeo para corrente de Whatsapp e estar com o povo contra a Assembleia. Ele poderia ter ido por esse caminho, mas não foi, preferiu romper com o bolsonarismo. Agora que a fortuna se virou contra, ele pode perder o poder.

 

[Pelo Estado] Pensando especificamente na pandemia, o senhor acha que a gestão é satisfatória?

Jean Castro – No início da pandemia o governo estava se destacando pró-saúde no conflito entre saúde e economia. Essa discussão é a que organiza o conflito político em torno da pandemia: quem enfatiza que é preciso foco imediato na saúde e outros que acham que a economia é muito importante e não pode ser negligenciada. Não vou entrar no mérito da questão. A questão é que, pressionado pela continuidade do isolamento e os prejuízos que isso traz a economia, Moisés cedeu e afrouxou, inevitavelmente isso aumentou o contágio e óbitos. Mas eu não sei se é possível atribuir o número de óbitos à política do governo, porque me parece que ela procura equilibrar as necessidades da saúde e do combate a covid-19, com um desafogo da asfixia economia.

 

[Pelo Estado] E as eleições municipais, como o senhor enxerga esse cenário no Estado?

Jean Castro – As eleições municipais serão um grande teste para medirmos se aquela onda antissistêmica que varreu o país em 2018 ainda está viva e ativa. Se ela ainda estiver forte, podemos esperar uma renovação maior nas prefeituras. Mas não é apenas isso. Digamos que a onda antissistêmica continue forte, mas nenhuma força política consiga canalizar isso, não vai ter renovação. Em 2018, tínhamos o humor antissistêmico e o bolsonarismo conseguiu canalizar esse humor, mas agora o bolsonarismo está fragmentado. Não conseguiu concretizar o seu partido. Isso é confuso para o eleitor bolsonarista. Com isso, é possível que o PSL, mesmo tendo uma verba muito grande, tenha um resultado decepcionante. O partido vai ficar com muito dinheiro e pouco resultado, porque não é só dinheiro que ganha eleição.

Coluna Pelo Estado: Fábio Bispo e Nícolas Horácio