Por: Coluna Pelo Estado

O Brasil já completa quatro meses de quarentena, ou seja, de impactos diretos da pandemia na nossa sociedade. Um dos grandes efeitos, para além das vidas que ainda são contabilizadas dia a dia e que por consequência acende todos os alertas, é o impacto no bolso das pessoas. A paralisação das atividades econômicas, somada a uma queda histórica da taxa de juros, que passou de 3,75% para 2,25% e com forte expectativa de chegar a 2% em agosto, foi um baque para quem tinha dinheiro ‘parado’ na renda fixa. A velha poupança já não é suficiente.

A Bolsa brasileira, a B3, despencou 47% desde o recorde registrado em janeiro, e empresas sólidas tiveram ações desvalorizadas além da conta. Mesmo assim, a entrada de pessoas físicas na B3 disparou em pleno caos. Guilherme Alano, nosso entrevistado da semana, mestre em economia pela UFSC, na área de Finanças Comportamentais, e sócio fundador da Siglo Investimentos, que atua no mercado financeiro, nos dá pistas sobre a virada no perfil do investidor brasileiro, que começa a deixar a renda fixa.

Para ele, o Brasil vive momento que já foi enfrentado nos Estados Unidos e Europa e que poderá também trazer maior independência ao mercado nacional, ao passo que fica menos suscetível ao entra e sai de investidores estrangeiros.

:.Leia o PDF da entrevista desta segunda-feira, 20 de julho

[Pelo Estado] – Nos últimos meses, nesse período de pandemia, nós vimos a Bolsa brasileira despencar, mas também já podemos ver sinais de recuperação. Ao que se deve esse movimento?

Guilherme Alano – No início do ano a B3 bateu 119,5 mil pontos e em meados de março, já na pandemia, o índice chegou a 64 mil pontos. Estamos falando de uma queda do pico para mínimo de quase 50%, caiu muito mais do que o racional. O mercado normalmente superestima, tanto para alta como para a baixa. É como um pêndulo, que passa do ponto de equilíbrio, o mercado é mais ou menos assim, tanto para o otimismo quanto para o pessimismo. E foi assim na queda em março e na recuperação, mercado começou a se recuperar de uma forma muito mais acentuada do que a maioria das pessoas estava imaginando. Na sexta passada votamos aos 100 mil pontos. Essa subida foi muito influenciada pelo investidor pessoa física. Se olharmos os dados de pessoa física na B3 (Bolsa de São Paulo) nós tínhamos 800 mil CPFs no fim de 2018. Em 2019 chegamos a 1,6 milhão de CPFs e em 2019 e agora já estamos batendo 2,5 milhões de investidores pessoa física. Só nesse primeiro semestre foi quase um milhão e meio de pessoas, 800 mil CPFs cadastrados na Bolsa. E foram eles que conseguiram dar esse fôlego, já que o investidor estrangeiro, que representa uma parcela muito significativa da Bolsa no Brasil, ele tirou recursos e isso foi muito compensado pelo investidor pessoa física, que por sua vez foi estimulado pela queda na taxa de juros. A partir do momento que vemos CDI e poupança rendendo 0,15% ao mês, o investidor acabou fazendo essa migração para a renda variável.

 

[Pelo Estado] – Analisando o hoje, que já voltamos aos 100 mil pontos, percebemos que foi de fato um bom momento para se entrar na Bolsa. Mas que tipo de garantia esse investidor que migrou tinha naquele momento?

Guilherme Alano – Historicamente quando temos essas quedas dos retornos da Bolsa esses períodos coincidem com uma diminuição de CPFs. Então acredito que essa mudança que aconteceu, em parte tem ligação com a queda de juros, mas também credito um pouco disso a uma melhor educação financeira. Temos muitos canais hoje que falam de renda variável, muito material de leitura, essa educação que vem se intensificando nos últimos três anos acaba incentivando essas pessoas e trazendo elas no momento mais adequado de mercado, que é o momento de baixa. Bolsa é completamente o oposto do mercado em geral. Quando ele entra em liquidação as pessoas saem, mas dessa vez quem investiu na baixa, nas mínimas de março e abril, está fazendo 50% de ganho nominal. Se compararmos com a Selic, nos patamares que estão, é quase anos de retorno em três meses. Estamos com uma Selic muito baixa, o que não ocorre historicamente no Brasil, quando se tinha 10% ao ano garantido as pessoas não trocavam esse ganho pela renda variável.

 

[Pelo Estado] – Levamos décadas para chegar ao primeiro milhão de investidores e rapidamente dobramos. Em termos de comparação global o que isso representa?

Guilherme Alano – Não só no mercado dos Estados Unidos como na Europa também se tem uma parcela muito significativa da população que investe em renda variável e muito por conta daquele ponto de inflação e juros baixos. Isso acabou incentivando eles, em outros momentos, a fazerem essa mesma transição. Claro que também tem essa questão da educação financeira, com um mercado mais equilibrado também. Acredito que nos próximos anos nós vamos ter um crescimento ainda mais significativo de pessoas na renda variável aqui no Brasil. E apara a economia como um todo é extremamente favorável, porque as pessoas passam a ter investimentos na economia real e não mais aquele investimento rentista, ela tem que procurar alocar o investimento melhor, isso acaba tenho um reflexo na questão educativa muito melhor. As pessoas passam a entender melhor o noticiário, quais efeitos de possíveis acontecimentos políticos, porque ele sente isso na carteira dele.

 

[Pelo Estado] – Quer dizer que quanto mais investidores internos tivermos mais independência e menos volatilidade teremos na Bolsa brasileira?

Guilherme Alano – Nós chamamos isso de capacity, que é a capacidade de absorção de novos investidores. Obviamente que se o mercado não acaba crescendo e fica uma bolha, muito inflacionado, com só pessoas entrando. O que a gente espera é que com o crescimento de pessoas e recursos entrando no mercado tenhamos também uma contrapartida de mais empresas entrando no mercado. Temos cerca de 500 empresas na Bolsa brasileira passíveis de investimento. Nos mercados americano e europeu são milhares de empresas com opções de investimento. Se tivermos mais gente colocando dinheiro na bolsa muito provavelmente vamos ter uma contrapartida que deve ser mais empresas abrindo capital.

 

[Pelo Estado] – Nós vimos que a queda afetou todos os setores e vemos também que alguns desses índices já conseguiram boa recuperação, outros ainda andam de lado. Tem algum setor ou papéis específicos que são mais atraentes?

Guilherme Alano – Dentro dessa pandemia tivemos setores muito mais afetados que outros. Setor de shoppings centers, turismo e aviação civil foram setores muito impactados. Na contramão disso nós temos setores que na verdade acabaram tendo resultado positivo com a pandemia. Se formos olhar a parte de tecnologia, e-commerce e as varejistas mais voltadas para o comércio eletrônico tiveram um ganho de market share [quota de mercado] que elas tiveram foi muito maior que a diminuição de mercado. Via Varejo, Magazine Luiza e a própria B2w (Lojas Americanas) já estão em patamares mais elevados do que estavam antes da crise, essas empresas acabaram se favorecendo bastante e são uma das queridinhas do mercado. Lá fora, que já tem um mercado de tecnologia muito mais avançado, se tomarmos pela Nasdaq, os índices estão muito mais elevados do que estavam no início do ano. Ele não só se recuperou da crise como também está muito acima do que estava anteriormente. A digitalização da economia que viríamos em dois ou três anos acabou ocorrendo em três meses. Além disso, aqui no Brasil temos as preferidas do mercado, que são Petrobrás, Vale, Itaú. São empresas com liquidez muito alta atraem uma parcela significativa da população. Essas são empresas mais resilientes, que já estão há muito tempo na Bolsa. Muitas pessoas que estão entrando agora, e que vêm da renda fixa, não quere ações com muita volatilidade. E também empresas que já se conhece, é muito mais fácil fazer a transição e comprar Vale, Itaú, Bradesco porque já são empresas conhecidas e estáveis.

 

Pelo Estado] – Algumas regiões já começam a dar sinais de que o pior já passou. Podemos vislumbrar voltar aos recordes do início deste ano?

Guilherme Alano – É a pergunta de um milhão, mas se a gente tiver uma Selic mais baixa e um contexto fiscal que permita essa taxa baixa é natural que a Bolsa avance um pouco mais. Se não tivermos as reformas fiscais que estávamos esperando para 2020 é possível que isso não ocorra assim. Para chegarmos ao rombo dos quase R$ 600 bilhões em 2020 foi muito fácil, agora a gente espera que ao longo deste segundo semestre tenhamos a mesma tempestividade na redução dos gastos. Isso vai por consequência implicar que tenhamos uma Selic, cambio e inflação mais controladas. Isso vai acabar incentivando a Bolsa.