Por: Coluna Pelo Estado

Ex-prefeita de Bombinhas por dois mandatos e também ex-vereadora do município do Litoral Norte, a deputada estadual Ana Paula da Silva, mais conhecida como Paulinha (PDT), é uma manezinha de Florianópolis, de origem humilde e trabalhadora. Essa característica é a principal marca  de sua atuação. Em oito anos, mudou a cara da jóia da Costa Esmeralda e hoje corre o estado como parlamentar, repassando a experiência de quem se identifica com as pequenas cidades.Paulinha está em seu primeiro mandato no Legislativo estadual, onde já teve a dura experiência de ser líder do governo Moisés em pleno processo de impeachment. “É lamentável que estejamos passando por tudo isso”, diz ela, criticando o que chama de “pedidos de afastamentos descabidos”.

Nesta entrevista exclusiva à coluna Pelo Estado, a mãe da Mariana e da Manuela fala sobre a ausência de lideranças no país, acredita que haverá uma terceira via como alternativa à polarização reinante no Brasil e diz estar “cansada” de discussões menores em plena pandemia. Confira:

 

Uma das principais bandeiras do seu mandato foi a instalação da Escola de Líderes. Qual o objetivo desta iniciativa?

Esse é um dos projetos mais apaixonantes do nosso mandato. Ela é mais que tudo um ambiente de impulso para quem chega na política ou que tenha causas sociais e públicas. A Escola de Líderes cria conexões. Assim como a Aula Magna proferido pelo Senador Cristovam Buarque, teremos muitas outras autoridades e lideranças que vão apresentar conteúdos para vereadores, principalmente os de primeiro mandato, prefeitos, vice-prefeitos, secretários municipais, instituições privadas sem fins lucrativos, enfim. Precisamos de líderes mais preparados e convictos em fazer o melhor para o nosso país e para o nosso estado.

 

Vivemos tempos sensíveis na democracia brasileira. A senhora acha que conseguiremos voltar a viver tempos de maior tranquilidade ou essa polarização não tem mais volta?

Eu acredito que os processos de organização social são cíclicos. A palestra do Senador Cristovam Buarque tratou do tema “onde erramos?” O que aconteceu desde a redemocratização, em especial de 1992 para cá, é que as pessoas perderam a fé nos movimentos progressistas. Porque, simplesmente, a gente tem um sistema ruído. Os partidos políticos, com todo o respeito, são os ambientes mais perniciosos da democracia brasileira. A população perdeu a confiança nos políticos porque a gente virou as costas para o que realmente importa, porque a gente não soube cuidar da máquina pública, porque não investiu onde era para investir: em uma educação de base desse país. A gente não teve a humildade para reconhecer que institucionalizamos a corrupção. Quero deixar claro que não tenho nenhum compromisso e nenhum vício com a corrupção na minha história de vida! Eu digo: a gente enquanto sociedade, enquanto movimentos progressistas. A corrupção veio a se institucionalizar nesse país e a gente tolerou. Agora há essa dicotomia entre Lula e Bolsonaro, mas que acredito que a gente ainda vai ter outras alternativas para o país. Eu vou dizer: não me sinto representada nem por uma força, nem por outra. E conheço um sem número de amigos – e aí não é a Paulinha política é a Paulinha cidadã que tem esse sentimento no coração. Eu acho que a gente ainda vai ter uma terceira via para rediscutir o processo da democracia brasileira longe dos extremos, que é o que estamos precisando.

 

Foto Arquivo/Agência AL

 

“Lançamos a Escola de Líderes que é um ambiente de impulso para quem chega na política. Precisamos de líderes mais preparados e convictos.”

 

Qual sua expectativa sobre o Observatório da Violência Contra a Mulher?

O Observatório é um trabalho que eu apenas acompanhei de muitas mulheres que começaram antes de mim essa ação. A iniciativa foi da ex-deputada Ana Paula Lima e nós todos da bancada feminina incorporamos esse trabalho, junto com a UFSC, com o MPSC e com o TJSC. Mas a gente precisa também de um conjunto e quero destacar um programa que foi aprovado na CCJ da Alesc o “Tem Saída”, um projeto do nosso mandato, que visa amparar a mulher que vem de um processo de violência, que conseguiu romper o ciclo e fica desempregada, sem abrigo. O “Tem Saída” é um programa que recebe essa mulher, ajuda ela arrumar um emprego e recolocá-la na sociedade para que ela dê os primeiros passos. É um programa que vai a plenário e vai virar lei. E tem outra ação que é o programa “Capacitando quem Acolhe” para capacitar as agentes comunitárias de saúde para que identifiquem os sinais da violência doméstica e possam  informar às autoridades competentes.

 

A senhora como parlamentar, fiscal do Executivo, como vê a atuação do Governo do Estado  na pandemia?

No cômputo geral da pandemia afirmo que o  Governo do Estado mais acertou do que errou nas políticas que adotou. Eu acompanho os movimentos de vários estados, a gente tem relações , se movimenta, e garanto: somos um oásis no deserto. Santa Catarina conseguiu manter muito mais atividades econômicas, muito mais empregos do que qualquer outro estado do Brasil. Um dos poucos estados do Brasil que tem capilaridade na rede filantrópica. Nós temos mais de 180 hospitais filantrópicos, temos municípios com pequenos nichos populacionais, enfim, temos características que nos fizeram preservar um pouco mais a vida.

 

E sobre essa troca de governadores durante todo este processo?

É lamentável que a gente esteja vivendo esse cenário. Isso é terrível para o Estado, o dano é gigantesco. Já me posicionei no passado recente como líder do governo Moisés, mas hoje simplesmente não tenho mais o mesmo envolvimento porque, de verdade, ‘preguiça desse assunto’, como se diz na gíria. Quero saber é sobre as obras que o estado fez em benefício da população, seja num governo ou no outro. Mas o que digo em relação à democracia é que temos que cuidar com os instrumentos que estão postos aí. Se qualquer ato virar impeachment, como vai se governar esse país? A gente tem eleições a cada quatro anos para isso.

 

Os municípios estão unidos para a compra de vacina. Qual a sua opinião sobre esse movimento e também sobre a iniciativa privada comprar imunizantes?

Sou absolutamente favorável. Mas a gente vive ainda uma situação preocupante que é o excesso de vaidade. O excesso de busca por uma vitrine, uma janela. Todo mundo quer aparecer. A pandemia tem mostrado o lado bom da humanidade, sim! Mas ela também tem apresentado o que nós temos de pior. A União não se define em relação à autonomia dos entes. Estou cansada de ver 10 vezes a mesma notícia e não chegar a lugar nenhum.

 

Foto Arquivo/Agência AL

 

“No cômputo geral, o governo de Carlos Moisés mais acertou do que errou na pandemia, em relação às políticas que adotou.”

 

A  senhora está em rota de colisão com o PDT, seu partido de toda a vida?

Estou há 31 anos no partido. O Manoel Dias é um romântico, divorciado em absoluto com a realidade há muito tempo e na pandemia ele se colocou – evidentemente em proteção a vida, afinal tem mais de 80 anos – numa condição em que só se reuniu e ouviu gente do mal. Não vou usar outra palavra. Gente do mal, que não tem princípios e critérios na sua vida pessoal e na sua conduta pública. Ele pediu a nomeação de uma pessoa que não vou fazer porque não tem perfil para o serviço público. É meu perfil defender aquilo que é ético e certo. Mas eu sou vice-presidenta estadual eleita. Mas o partido não quer uma futura candidata a governadora, por exemplo. Ele prefere negociar o partido com alguém e eu não coaduno com isso.

 

A  senhora será candidata ao governou?

Não. Eu sou candidata à reeleição à deputada estadual. Eu adoro trabalhar para cidades pequenas, é a minha raiz. Mas vou te dizer: a gente prepara uma eleição sólida para deputada estadual, mas ainda vou ser candidata ao governo do estado e vou ser governadora. Pode anotar.

 

 

Ewaldo Willerding