Por: Coluna Pelo Estado

Bombeiro da reserva, Aldo Baptista Neto voltou de Brasília após crise dos respiradores. Militar fala em conspiração contra Moisés e ataca gestões passadas.

Entrevista
Aldo Baptista Neto
Defesa Civil-SC

Em 2018, logo após as eleições que colocaram o presidente Jair Bolsonaro no poder, o coronel da reserva do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina, Aldo Baptista Neto recebeu convite para assumir a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, com a função de coordenador-geral de Gerenciamento de Desastre. Com passagens pela Defesa Civil em Blumenau e pelo Samu, onde assumiu cargos de assumiu cargos de coordenadoria, o plano era fica pelo menos quatro anos em Brasília naquele até então era o cargo mais alto alcançado na carreira.

Em maio deste ano, após a crise causada pela descoberta na compra dos respiradores, que resultou na queda do então secretário Helton Zeferino, o Bombeiro foi trazido de Brasília às pressas para ocupar o cargo de adjunto na Saúde.

No início deste mês, também diante da saída de surpresa do coronel João Batista Cordeiro Júnior, assumiu a Defesa Civil. Defensor do que chama de “nova gestão” de governo, a qual atribuiu tanto a Moisés como a Bolsonaro, o militar diz que o atual governo está sendo vítima de manobras “ardilosas” e aproveita para expor suspeitas de fraudes e superfaturamentos em gestões passadas.

:.Leia o PDF da entrevista da semana da Coluna Pelo Estado.

[Pelo Estado] Como surgiu essa proposta de mudar de adjunto na Saúde para chefiar da Defesa Civil?

Neto- Quando se acentuou crise da pandemia em Santa Catarina, e como tenho uma ligação de amizade muito grande com o secretário de Saúde [André Motta], trabalhamos juntos no SAMU, ele sugeriu ao governador meu retorno de Brasília. Voltei para ser o 02 da Saúde. Trabalhei na Saúde durante 100 dias, atuando principalmente no Centro de Operações em Saúde, o Coes. Quando o coronel João Batista pediu para sair da Defesa Civil, e por toda minha história que eu tenho de Defesa Civil, o governador pediu que eu assumisse a pasta e assim, hoje me encontro, no comando da Defesa Civil do Estado.

A Defesa Civil do Estado tem histórico de entregas excepcional aqui em Santa Catarina. Muito próxima da comunidade, com instituições que trabalham integradas

 

[Pelo Estado] O senhor acredita que a atual crise, que é muito mais política, pode atrapalha a atuação dos órgãos do governo?

Neto – Essa crise é uma crise quadrihélice, que são quatro grandes hélices que dão o passo dessa engrenagem maior: Saúde, afinal de contas estamos em meio de uma pandemia que é global; temos uma crise econômica, porque o impacto da crise de saúde reflete diretamente sobre o laboral humano e a nossa capacidade produtiva; comportamento social, nossa geração não estava acostumada a viver com o tolhimento de ir e vir, uma coisa muito nova e passamos a viver no limite disso; e para nossa infeliz surpresa, de forma muito ardilosa e construída, a crise em Santa Catarina assumiu uma roupagem política muito forte. Uma coisa que me entristece muito, como cidadão catarinense, é como que pessoas tão inescrupulosas se utilizam desse momento de fragilidade para uma desconstrução no campo político, fragilizando e expondo tanto o nosso estado. Esse constante desacreditar, de chamar de desgoverno, enquanto existe uma combinação de fatores e resultados, muitos deles jamais alcançados em nossa história, é lançar uma cortina de fumaça para tentar esconder os reais interesses.

 

[Pelo Estado] Os secretários assinaram uma carta justamente falando sobre interesses por trás do processo de impeachment em curso. Que interesses são esses?

Neto –Eu assinei essa carta, de livre e espontânea escolha. Essa carta surgiu durante a reunião e todo mundo rapidamente concordou. Muito mais do que defendermos pessoas, governador e vice, nesse gesto nós estamos defendendo um modelo. Foi por isso que eu larguei o convite que tive para ficar quatro anos em Brasília para me unir a um esforço conjunto porque ele representa o meu ideal o que eu entendo por correto, por justo, com foco na qualidade de vida das pessoas, uma gestão honesta com o erário. Eu fico pasmo quando encontro colegas contando como eram suas secretarias quando assumiram. Do que eram os ralos que drenavam de forma obscura os recursos dentro de contratos. É uma coisa absurda, o [secretário] prisional contando como eram seus contratos de terceirizados, de fornecimento de produtos. Eu vou dar um exemplo: os contratos de oxigênio hospitalar. Nós não baixamos o número de hospitais, por sinal aumentamos o número de usuários, e por uma revisão de contrato passamos de R$ 24 milhões por ano para R$ 12 milhões. O mesmo produto e a mesma rede hospitalar. E assim vem telefonia, combustível. Uma quantidade de contratos que tinham lá entranhado um ralo aberto drenando valores e de que nada serviam.

Tivemos excepcionais governadores, pessoas ilibadas, mas o que foi que aconteceu de alguns escalões para baixo não se tem ideia. Eu não faço ideia de outros compromissos que existiam para se ter uma sangria dessa do Estado. E é nisso que eu acredito, em uma gestão sólida e focada no respeito ao catarinense. Por isso eu assinei a carta e assinaria quantas vezes necessário fosse.

Aí você vai me perguntar: ‘você é idealista?’

Sou, aos 50 anos sou. Eu quero deixar um Estado melhor para minha família, para meus filhos. Eu quero ter hombridade de quando meu filho perguntar ‘pai o que você fez diferente?’. Por isso a nossa indignação. Muito mais do que secretários assinando um documento, somos cidadãos catarinenses que confiamos sim no modelo de gestão que foi escolhido para o Estado. Se por ventura a população catarinense entender que não é o melhor modelo, que não deu certo, tudo bem, em 2022 retorna-se nas urnas, mas não fazer o que estão fazendo.

 

[Pelo Estado] – E a crise dos respiradores, você acha que foi a chave para desencadear tudo isso?

Neto –A questão dos respiradores é um caso isolado, de um processo de aquisição que tem alguns desdobramentos, mas sem sombra de dúvidas está sendo usada como ponto de alavanca para dar eco a uma intenção nefasta que está por trás do grupo que tem interesse nisso. Foi a oportunidade que tiveram de poder ganhar força.

De forma bem aberta, franca e tranquila –a questão dos hospitais de campanha está na mesma esteira-, os respiradores eram disputados pelo mundo inteiro. Tivemos a situação de uma empresa que se apresenta e diz que tem o equipamento, mas diz que tem que pagar na China para retirar. Uma coisa que me incomoda muito, também como cidadão, é que essa empresa nos enganou desde o início, ela não tinha o equipamento.

O problema foi de cunho de procedimento de processo de compra, onde uma pessoa assina uma nota de forma antecipada, com isso simulando o recebimento do equipamento para gerar o pagamento antecipado, sem os cuidados que existiam como a contrapartida de segurança.

Assim que descoberto foi cessado, foi aberta sindicância, o próprio governador pediu investigação policial. As pessoas falam em crime no caso dos respiradores, mas o processo ainda não terminou. Nós estamos ávidos, esperando pela resposta, para cortar a cabeça de seja quem quer que for necessário.

 

[Pelo Estado] O senhor acredita que é possível uma reaproximação com o o presidente Bolsonaro e o bolsonarismo?

Neto – Eu vou responder ultrapassando as questões político- partidárias. Eu votei no Bolsonaro, sou bolsonarista e continuaria votando quantas vezes fosse necessário. Muito mais do que votar em pessoas, que votar em Bolsonaro, Moisés ou Daniela, nós votamos escolhendo em uma nova condução do executivo, tanto do país como do estado. É isso que eu defendo. Não tenho dúvidas que todo catarinense que votou em Bolsonaro ou Moisés, o interesse de voto ultrapassa a figura das pessoas.

Como o foco principal é o bem comum da nação, e eu não tenho dúvida nenhuma que esse é o eixo principal, aproximações, todos estão prontos para aproximações ou reaproximações a qualquer momento, porque além de pessoas o nosso interesse é o bem comum. Os extremos são muito ruins. Se permitir conduzir por extremos é muito complexo. Nós queremos equilíbrio, sensatez.

Coluna Pelo Estado

Edição e textos: Fábio Bispo 

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