Por: Coluna Pelo Estado

Presidente do Conselho dos Secretários de Saúde diz que principal objetivo na pandemia é evitar a falta de leitos de UTI

Santa Catarina vive um novo momento de crise na pandemia do novo coronavírus. O Estado está entre os que apresenta crescimento de mortes e contágios. Na última semana, praticamente todas as regiões entraram no nível de alerta gravíssimo para o vírus e o número de hospitais com lotação máxima não baixou de dez. No meio disso, tivemos a desativação de leitos, por falta de entendimento entre municípios e a Secretaria de Saúde, e eventos como as eleições, feriados e a proximidade da temporada de verão.

O presidente do Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado, Alexandre Lencina Fagundes, em entrevista à Pelo Estado, fala um pouco sobre as expectativas para as próximas semanas, sobre o embate no fechamento de leitos e quais são os pontos mais críticos para o aumento da pandemia.

E dá um conselho: a sociedade vai precisar rever seus hábitos até que tenhamos uma vacina para todos.

 

[Pelo Estado] – Como Santa Catarina está gerenciando esta crise sanitária na sua avaliação?

Alexandre Fagundes – Não existe mais receita pronta. As dificuldades não foram só nossas, mas de diferentes regiões, de vários países. Sinceramente nós não passamos um momento tão adverso como esse nessa nossa sociedade moderna. Alguns especialistas estão reportando agora este episódio em algo como a Segunda Guerra Mundial. O impacto que isso está dando em toda a sociedade, no direito de ir e vir, no campo econômico, em vários segmentos. Mas, fazendo uma avaliação do nosso Estado, eu diria que nós não fomos perfeitos em tudo, e nem tinha como, e o grande desafio é justamente em não deixar o sistema colapsar e até o momento nós temos conseguido manter o Sistema Único de Saúde funcionando. Acho que as medidas que foram tomadas vieram no tempo certo porque e até o momento conseguimos evitar o colapso. Imagina nós termos aí um cenário como o de corpos guardados em câmaras frias, gente morrendo por falta de atendimento. Em uma avaliação geral, guardadas as dificuldades, nós temos conseguido evitar o mal pior. Por isso que esse cenário desta semana nos preocupa bastante.

 

[Pelo Estado] – Na semana passada vocês se reuniram com a Secretaria de Saúde justamente para tratar deste momento mais crítico. O que ficou acertado?

Alexandre Fagundes – Nós alinhamos algumas posições. O governo já tinha determinado quatro cenários de ações e esses cenários vão ser intensificados. Nós temos uma alta taxa de transmissibilidade e isso tem colocado praticamente todo o estado em nível de alerta gravíssimo. E o que mais preocupa é a taxa de transmissibilidade, ou seja, o vírus está contaminando pessoas em uma velocidade muito grande e isso faz com que muitas pessoas fiquem doente ao mesmo tempo e isso pode levar ao colapso do sistema. O que precisamos fazer é cortar essa curva de transmissão. Certamente teremos algumas medidas diferentes do que vinha sendo feito. Algumas flexibilizações poderão ser retiradas, talvez tenhamos limitação de horários de funcionamento. E isso tudo o governo já está trabalhando. Claro que qualquer decisão depende do governador, ou do próprio secretário, através de portarias da Saúde. E também da Federação dos Municípios, que têm autonomia para editar decretos. Nesse sentido nós estamos aguardando para que novas decisões sejam implementadas. Tudo que está ocorrendo hoje é reflexo de duas semanas atrás e tudo que tomamos de decisão hoje só vai ter reflexo também daqui há semanas.

 

[Pelo Estado] – Quais são as regiões que estão mais próximas do colapso?

Alexandre Fagundes – Quando falamos de covid, nós falamos de pessoas e densidade demográfica. Então, os problemas mais sérios tende acontecer aonde temos uma concentração maior de pessoas. Nesse cenário, nós temos dois terços da nossa população vivendo na faixa litorânea. Automaticamente, essas regiões começam a viver os reflexos com maior intensidade ou de forma mais precoce. E isso tudo também tem uma variante muito importante de como as pessoas daquela cidade ou região estão se portando. E para agravar esse cenário, nós sabemos que a faixa litorânea é eminentemente turística, região de praia, e estamos entrando na época de final de ano, festas e férias, e isso se torna um agravante muito importante nesse momento. Porque se as pessoas não respeitarem o distanciamento social, não evitarem aglomeração, mesmo nós mantendo a rede hospitalar funcionando, os leitos, talvez isso tudo não seja suficiente. O grande desafio agora não é nem conscientizar, todos sabem sobre a covid e o que está acontecendo, o que precisamos é que as pessoas adotem um estilo de vida mais cauteloso.

 

[Pelo Estado] – Como está a situação dos leitos que foram desativados, o Estado não está pagando aos municípios até que haja habilitação pelo Ministério da Saúde?

Alexandre Fagundes – Quando você pleiteia habilitação no sistema de Saúde é preciso colocar esse leito para funcionar, mandar todo o processo para o Ministério da Saúde, e aguardar, o que demora entre 30 a 40 dias. E é esse período que nós estávamos discutindo sobre quem iria pagar. Quem faz esse custeio é o governo do Estado, porque ele que é responsável pela alta complexidade, mas não houve consenso entre os municípios, e minha posição era de que o governo do Estado arcasse com essa responsabilidade que lhe é devida. Faz duas semanas que o secretário André Motta se conscientizou e anunciou que faria esse custeio e essa é uma situação que está em parte resolvida.

 

[Pelo Estado] – Nós temos 13 das 16 regiões em nível gravíssimo, mas nenhuma medida nova foi anunciada. Porque as regiões não adotam medidas considerando a matriz de risco potencial?

Alexandre Fagundes –  Na verdade, é uma situação bastante complexa. A matriz se baseia em quatro dimensões: curva de óbitos; a transmissibilidade; questões epidemiológica, como diagnóstico e monitoramento das pessoas; e fiscalização, que envolve Vigilância e outras forças auxiliares. Quando a gente fala que para as pessoas não se contaminarem elas não podem ter o convívio social, automaticamente a gente está impactando na economia dessas regiões. Nós vivemos isso em abril e maio, quando tivemos paralisação de vários segmentos. Existe essa pressão do setor econômico, existe o negacionismo, e isso acaba causando um conflito de entendimento na sociedade. As pessoas não sabem mais em quem acreditar. E chega-se a falar que a crise, os problemas, viria tudo após a política. Nós, autoridades sanitárias, não temos como nos furtar das nossas responsabilidades, nada foi mudado em função da eleição. Do meu ponto de vista, a eleição acabou expondo as pessoas ao contágio também. Ficamos aí quase 50 dias em campanha e depois do resultado do primeiro turno vários municípios tiveram festas, aglomerações, e na verdade a eleição foi mais um evento para aumentar o contágio. Então, o que eu percebo, é que temos que mudar um pouco nosso jeito de viver, pelo menos até que tenhamos vacina. Antes de não termos a vacina, nós temos que mudar um pouco, se não vamos estar sempre na iminência dessa montanha russa.

 

[Pelo Estado] –  Qual é o caminho mais seguro e eficiente para amenizar a pandemia enquanto não temos a vacina?

Alexandre Fagundes – Eu vejo que o caminho mais seguro são as medidas não medicamentosas. As pessoas, de fato, precisam ter uma postura um pouco diferente do que estão tendo. Não dá para a gente se cuidar um pouco e relaxar ao ponto de comprometer tudo que fizemos até o momento. Esse é o caminho mais seguro. As pessoas têm que evitar aglomerações, têm que usar máscara, e até não termos uma vacina essa é a melhor receita.