Por: Coluna Pelo Estado

Por Lauro Mattei

Desde o mês de março de 2020, quando teve início no Brasil a pandemia provocada pelo novo coronavírus, o assunto vem sendo tratado de forma irresponsável e até pejorativamente por parte do Presidente da República, chegando a classificar a COVID-19 como uma simples “gripezinha”. Mais recentemente chamou os brasileiros de “maricas”, porque estes estavam dando muito atenção a tal doença. Além disso, desde o início da pandemia tem dado demonstrações públicas contrárias a todas as recomendações das autoridades sanitárias do país, seja promovendo aglomerações ou então não usando os instrumentos de proteção que evitam a transmissão da doença.

No dia 28 de abril de 2020, quando o país ultrapassou a marca de 5 mil mortes, o presidente assim se manifestou aos jornalistas quando questionado sobre assunto: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, não faço milagre”. Tal manifestação foi uma grande falta de respeito, especialmente as mais de cinco mil famílias que naquela época já tinham perdido algum ente querido para a COVID-19.

De todo modo, naquele momento já estava sendo desenhada toda a trajetória negacionista do Presidente da República em relação à doença, a qual já vitimou até o momento mais de 190 mil pessoas. Por um lado, demonstrou toda sua falta de responsabilidade pública num momento de pandemia, contrariamente ao que fizeram praticamente todos os demais chefes de Estado do mundo e, por outro, negou veementemente os conhecimentos científicos que sempre enviaram uma mensagem clara aos governantes: em primeiro lugar, atuem sempre procurando salvar vidas.

Nesta direção, é importante recordar minimamente a trajetória da política estadual de combate à Covid-19, uma vez que, ainda em 17.03.20, o governador de Santa Catarina adotou as medias recomendadas pela OMS, quando a incidência da doença no território catarinense era bem baixa (menos de mil casos registrados). Para tanto, foram adotadas medidas rígidas recomendadas pela ciência para conter a curva de contágio da doença. Todavia, logo no início do mês de abril foram sendo flexibilizadas todas as normas, chegando-se ao ponto de não se ter mais uma política coordenada pelo governo estadual nos meses seguintes, fato que resultou numa explosão da doença entre os meses de junho e agosto, inclusive, com milhares de óbitos. Após um pequeno arrefecimento no mês de setembro, a doença voltou com mais força a partir do início de outubro, mês que teve continuidade o processo de flexibilização de diversas medidas de controle da pandemia, cujo ápice ocorreu com o decreto 1.027, de 18.12.20. Decorrente dessa forma de atuação, Santa Catarina passou a ocupar o 4º lugar dentre as unidades da federação com maior número de casos confirmados e em 11º posto com o maior número de mortes.

Portanto, é importante recordar aquilo que a ciência e os cientistas catarinenses destacaram desde o mês de abril, posicionando-se contrários à flexibilização do isolamento social e retomada das atividades econômicas, alertando sempre que, na ausência de uma vacina capaz de controlar a pandemia, o único mecanismo eficaz era lançar mão de medidas efetivas de distanciamento social. Para tanto, além de se evitar aglomerações sociais para conter a transmissão do vírus, recomendava-se a testagem exaustiva da população como outro mecanismo de buscar controlar a contaminação das pessoas. Além disso, as manifestações científicas deixavam claro que a COVID-19 era uma doença letal e que não poderia ser deixada ao livre arbítrio de cada cidadão, mas que eram necessárias medidas coletivas emanadas a partir da autoridade governamental máxima do estado.

A partir daí, as organizações científicas fizeram diversas projeções na época, tanto para os registros da doença como para os óbitos, caso as medidas recomendadas pela ciência não fossem respeitadas. Destaca-se que a mais dolorosa dessas projeções foi mostrar às autoridades catarinenses que se a doença continuasse sendo administrada da forma que vinha sendo feito naquele momento (abril de 2020), o estado chegaria ao final de dezembro de 2020 com a marca de 5 mil óbitos.

Tal prognóstico foi questionado, inclusive por diversos meios de comunicação, e duramente atacado pelos “negacionistas” seguidores do Presidente da República que residem em Santa Catarina. A seguir selecionei algumas dessas manifestações nagacionistas publicadas pelos leitores em jornais entre os dias 10.04 e 20.04.20: “foi criada uma paranoia global pelos comunistas e o povo inocente caiu nessa armadilha. A Covid-19 está rodando por aí, mas não é com a força que querem que ela tenha”; “a mortalidade é alta apenas nos países com temperatura abaixo de 15º, acima de 20 graus é baixa, como no nosso caso. O vírus existe sim, mas não na proporção que eles querem fazer a gente acreditar”; “Toda análise desses cientistas estão erradas porque foram feitas em uma base falsa: o número de casos”; “Esses cientistas estão tentando colocar o pânico na população exatamente como ocorreu em 2013 com a gripe H1N1”; “Essa conversa é típico de análises de comunistas, por isso deveriam fechar a UFSC porque estamos perdendo tempo com esses tipos de estudos e estimativas”; “O ensino público federal está carcomido pelos comunistas”; “Trabalho na área de saúde pública há 20 anos e esses cientistas estúpidos estão errados porque não conhecem nada da área de saúde. Um dia a verdade aparecerá e veremos quem tinha razão”.

Pois bem, a verdade está aí e o que temos a dizer a essas manifestações negacionistas e de incautos é que os cientistas e seus métodos estavam totalmente corretos, tanto em seus alertas como em suas previsões de óbitos, infelizmente. Por isso, como membro da comunidade científica da UFSC só me resta ser solidário às mais de cinco mil famílias catarinenses que perderam algum ente querido para a Covid-19. E dizer a esses negacionistas e incautos que a ciência, além de não ter ideologia, continua sendo o melhor instrumento à disposição da sociedade, especialmente em épocas difíceis como a que estamos enfrentando no presente momento. Por isso, antes de desprezar o trabalho dos cientistas, as pessoas deveriam se informar melhor sobre qualquer assunto e não se pautar apenas por fake news. No caso particular da Covid-19, tenho certeza que toda a comunidade científica catarinense se mobilizou com uma única intenção: preservar aquilo que o é bem mais primordial da humanidade: a vida!

Ainda no mês de abril de 2020, quando entrevistado por uma emissora de rádio e questionando sobre as medidas de flexibilização que estavam sendo adotadas naquele momento, me manifestei contrário às mesmas por entender que daquela forma iríamos protelar um controle melhor da doença até o final do ano e, provavelmente, chagaríamos ao final de 2020 com nível altíssimo da população contaminada e, pior ainda, com um número elevado de óbitos. Desnecessário dizer que naquela época fui classificado como mais um alarmista!

Retomando ao início do artigo, Santa Catarina chegou precisamente a 5.039 mortes registradas oficialmente no dia 27.12.20, antes mesmo do final do mês de dezembro. Quando instigado a falar sobre o assunto em uma rede de TV, o governador do estado assim se manifestou publicamente no dia 23.12.20: “Santa Catarina tem a melhor gestão da Covid-19 no Brasil (sic) e nosso trabalho foi feito. Nós não podemos operar um milagre neste momento. Para evitar que as pessoas venham a falecer esse milagre depende de Deus”. Além disso, têm sido constantes as manifestações do governador – e também de seu secretário estadual de saúde – de que o estado possui a menor taxa de letalidade do Brasil, como se esse fosse um indicador que devesse ser celebrado.

Na verdade, o que chama atenção nessa fala do governador Moisés é que ela guarda muita semelhança com a fala do Presidente Messias, uma vez ambas procuram jogar suas responsabilidades básicas para a ordem divina. Todavia, desde os tempos do filósofo Adam Smith sabe-se que o destino da humanidade está sob a ordem dos homens e não na alçada divina.
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Lauro Matei: Professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Administração, ambos da UFSC. Coordenador Geral do NECAT-UFSC e Pesquisador do OPPA/CPDA/UFRRJ. Email: l.mattei@ufsc.br