Uma cidade de pouco mais de 3,7 mil habitantes no Oeste catarinense guarda um segredo que levou décadas para ser desvendado — e que atrai cientistas da Nasa, da Europa e do Japão. O Domo de Vargeão, uma cratera formada pelo impacto de um meteorito que caiu entre 80 e 100 milhões de anos, foi batizado com o nome da cidade e se tornou uma atração do turismo científico brasileiro. Com 12 quilômetros de diâmetro, ela é a única estrutura do gênero em Santa Catarina e um dos fenômenos geológicos mais raros do planeta.
A história do reconhecimento científico da cratera começa na virada da década de 1970 para 1980, quando o geólogo Álvaro Penteado Crosta, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), iniciou uma pesquisa após visitar a região. Na época, dois geólogos haviam descrito o fenômeno, mas a hipótese deles era outra — acreditavam se tratar de uma formação vulcânica.
“Na nossa primeira visita, tive a convicção de que aquilo de fato não era uma estrutura vulcânica, mas sim uma cratera meteorítica. Isso está impresso nas rochas”, recordou Crosta. Segundo ele, o meteorito que atingiu o que hoje é a cidade de Vargeão tinha entre 550 e 800 metros de diâmetro, era composto de ferro e liberou uma energia equivalente a cerca de 500 mil bombas nucleares, como a que destruiu Hiroshima, no Japão, em 1945.
O geólogo afirmou que a força do choque deformou as rochas de maneira permanente e irreversível. Uma assinatura que, de acordo com ele, nenhum outro processo geológico é capaz de reproduzir. “Mesmo que a cratera seja, com o passar do tempo, desgastada, erodida, as rochas permanecem com essa deformação impressa nelas”, explicou Crosta.
De acordo com o geólogo, existem apenas 200 crateras de impacto catalogadas e cientificamente comprovadas no planeta. Nove delas estão no Brasil. Porém, o que torna Vargeão singular é que a cratera é uma das quatro no mundo formadas sobre basalto, a rocha predominante na superfície da Lua e em Marte. Outras duas também ficam no Sul do Brasil — Vista Alegre, no Paraná, e Quaraí, no Rio Grande do Sul — e uma está fora do país.
Foto: Divulgação/Prefeitura de Vargeão
“Uma cratera formada nesse tipo de rocha tem um interesse enorme, porque é semelhante ao que acontece na Lua e em Marte. A gente pode, sem precisar ir à Lua ou a Marte, estudar fenômenos de impacto em basalto usando o Domo de Vargeão”, afirmou Crosta.
Há ainda outro fator que distingue o Domo de Vargeão. O impacto foi tão intenso que removeu quase um quilômetro de espessura de basalto e expôs o arenito do Aquífero Guarani. “O arenito existe nessa região [do Sul do país], mas está a um quilômetro de profundidade. Só que dentro do Domo de Vargeão, a gente o encontra na superfície”, detalhou o geólogo.
Além disso, a cratera está bem preservada e é de fácil acesso — características que ampliam seu valor científico. “Ela não sofreu muita erosão com o tempo. É fácil de se colher materiais, de se conhecer os locais”, informou a secretária de Cultura e Turismo de Vargeão, Vanda Gehlen Gregianin.
Ao longo das últimas décadas, Vargeão recebeu pesquisadores de dezenas de países. Crosta já participou de excursões com cientistas de 15 a 20 nacionalidades diferentes, além de pesquisadores da Nasa, que visitaram a cidade em diferentes ocasiões.
Em 2026, uma equipe italiana esteve na cidade coletando amostras do solo para comparar com o regolito lunar — a camada superficial da Lua. “A Nasa tem amostras do solo lunar e as comparou com o de Vargeão. O nosso solo ficou similar ao solo lunar”, ressaltou a secretária municipal.
Para transformar esse potencial científico em atração permanente, a prefeitura está promovendo a modernização do museu existente, com tecnologia de visualização 3D e recursos interativos, voltados especialmente para jovens e estudantes.
O geólogo da Unicamp, que atua como consultor científico, projetou a inauguração do museu entre julho e agosto deste ano. “Vai ser um dos pouquíssimos museus desse tipo no mundo, um espaço muito moderno”, afirmou.
Foto: Divulgação/Prefeitura de Vargeão
Na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) tramita um projeto de lei para que Vargeão seja reconhecida oficialmente como a capital catarinense do meteorito. A secretária municipal também mencionou um plano de desenvolvimento turístico em andamento, com 16 empreendedores locais recebendo assessoria para criar hospedagens, restaurantes e roteiros no município e região. “Queremos atender turistas, não apenas pessoas que passam pela região”, disse Gregianin.
Para Crosta, o desafio maior ainda é cultural. “As pessoas não conseguem perceber muito o valor disso. É, de fato, um presente da natureza para a região oeste de Santa Catarina. Uma coisa tão rara no mundo, com um exemplar tão bem preservado”, acrescentou.
* Com informações da Gazeta do Povo.






