A indústria carbonífera encerra 2025 com notícias positivas e pensando no futuro. O ano foi marcado pela aprovação da lei que garantiu as usinas termelétricas do Sul do país ativas por mais 15 anos. É o tempo considerado suficiente para o setor se modernizar para zerar a emissão de carbono da atividade e o próximo passo é definir os caminhos para alcançar a meta.
“No dia 24 de novembro tivemos o coroamento de cinco anos de um trabalho no Congresso Nacional para recontratar 1.090 megawatts produzidos pelas usinas de carvão até 2040. Isso temos o tempo necessário para poder reestruturar a indústria, pensando em tecnologias para a descarbonização, fazendo a chamada transição energética justa”, destacou o presidente da Associação Brasileira do Carbono Sustentável (ABCS), Fernando Zancan.
Graduado em Engenharia de Minas, Zancan possui uma atuação de 50 anos no setor carbonífero. Ele considera o atual momento do carvão o mais positivo para o setor. O engenheiro elenca três fatores para embasar a sua avaliação: a valorização geopolítica do mineral, a disposição de grandes empresas em investir no segmento e a importância das termelétricas para o crescimento da demanda de eletrificação.
“Os países estão preocupados em não ficar dependentes de terceiros na produção de fertilizantes, de carvão metalúrgico. E isso tudo tem ligação com o carvão mineral. O Brasil também está atento a isso. Outro componente favorável é o apetite empresarial. É um novo perfil de investidor, que está disposto a aplicar recursos em novas tecnologias do carvão e, ao mesmo tempo, avançar em ações que promovam o carbono neutro. E, por fim, vem a demanda. Hoje o mundo está cada vez mais eletrificado e o carvão segue como maior gerador de energia elétrica do mundo”, enumerou.

Tecnologias e novos usos
Com a viabilidade de tempo para se transformar, a indústria do carvão agora foca em definir quais serão os projetos a serem executados neste período. No horizonte está o prazo de 2040, com novos usos mineral para o mineral e zero emissão de carbono.
No Sul de Santa Catarina, a Satc, instituição de ensino onde Zancan é diretor executivo, lidera projetos de pesquisas e desenvolvimento para captura de CO². Entre as iniciativas estão em fase de testes de produção de zeólitas (produzidas com as cinzas da queima do carvão mineral) para o agronegócio. Um dos usos é a fabricação de fertilizantes.
“Em Santa Catarina já podemos pensar como fazer a primeira fábrica de zeólita para escala industrial. Tem a tecnologia e quem quer investir disso. O Paraná tem um projeto de uma planta de carboquímica convencional que está sendo desenvolvido. E no Rio Grande do Sul ainda estão estudando o que será feito para o futuro do carvão”, elencou o presidente da ABCS.
Inspirações e recursos
Os próximos anos do carvão também passam pela segunda maior economia do mundo: a China. O país possui investimentos vultuosos no setor e de lá sairão as grandes tecnologias do setor, aponta Zancan. O governo chinês tem uma meta de zerar a emissão de CO² até 2060 e por isso tem aplicado recursos para cumprir a meta.
“A China e o Japão estão evoluindo muito rápido na captura de carbono. Logo, logo essas tecnologias estarão no mercado com preços mais competitivos e podemos trazer isso para o Brasil. Todo mundo falava que o carvão era passado. Os números mostram que não é. O grande problema era a emissão do CO². Agora existem tecnologias para sanar essa questão e continuar operando com combustíveis fósseis, mais especificamente o carvão”, comentou.

No Brasil estima-se que haja aproximadamente R$ 10 milhões por ano de recursos projetos de pesquisa e desenvolvimento no setor. “A gente precisa de aproximadamente R$ 100 milhões por ano para avançar. A indústria não tem esse dinheiro, então precisa criar mecanismos. Tem que ter um marco regulatório para ter esse dinheiro”, pontuou Zancan.
A indústria do carvão nos três estados do Sul do Brasil é responsável por 36,2 mil empregos diretos e indiretos, gera R$ 1,6 bilhão de tributos e R$ 1,1 bilhão de massa salarial por ano. Com as usinas mantidas, a projeção é de que a cadeia produtiva do carvão movimentará um valor agregado de R$ 107 bilhões.





